O que é ser nordestino? (visão do meio pra baixo do país)

Publicado: maio 4, 2009 em cotidiano, inícios... u.u, sábias sapiências da vida pós moderna

O que é ser nordestino…

Essa pergunta, apesar da expectativa dos q leem, e da minha inicial, não será respondida aqui completamente. Esse post é mais o início de uma tentativa de explicar esse aura, esse sentimento que envolve a essa comunidade, que possui nove estados tão distintos culturalmente, mas que se reconhecem pela fala, pelo aconchego, pela alegria, pelas formas de receber, enfim, por ser nordestino. Nós que somos peregrinos, ou melhor retirantes, imigrantes das nossas terras que vem “inchar” o sul próspero, mesmo que saibamos de todas as mazelas e dificuldades de nossa terra, ao nos vermos longe de casa, desenvolvemos um apego que até então talvez nem conhecêssemos ao que é nosso. Por isso resolvi escrever uma série de posts falando desse sentimentoque agora também é meu.

Mais do que nunca, aqui em Brasília, longe da minha querida Teresina, consigo ver que o quanto minha cidade, meus costumes, os hábitos das pessoas me faz falta. E o quão ignorados nós somos pelo resto do país. Resolvi começar mostrando minha indignação do quanto somos ignorados pelo resto do país. Pra não expor comentários e críticas minhas à bolha que é Brasília e o quão preconceituosos, ou mesmo sem conhecimento do que se passa lá em cima no Nordeste, vou evitar escrever coisas que penso. Resolvi dedicar esse espaço pra escrever coisas que ouvi, que são melhores descritoras da situação.

- “Vou pra Porto de Galinhas nas férias! Meu médico disse que eu preciso tomar um remédio pra verme antes de ir, por conta da água de lá, que num é bem tratada. Pra ir pro Nordeste, ele sempre recomenda tomar.”

- “É muito triste pensar o quanto nossas crianças são privilegiadas, com propostas educacionais inovadoras como essa, com tantas possibilidades, coisas de primeiro mundo, enquanto tantas pessoas passam fome no Nordeste.”

- “Mas a fome que se passa aqui em Brasília, por exemplo, é diferente da que se passa no Nordeste. Aqui, por mais fome e miséria que exista, sempre há recursos pra essas famílias, tem onde comprar comida, entende? Lá não tem. A escassez é de recursos naturais”.

- “E o carnaval no Piauí é o quê? Frevo? Ué, mas é tudo Nordeste ali, como é que eu vou saber que frevo é Recife, não é Piauí… é tudo a mesma coisa.”

- “Ah, eu já passei por Teresina, eu sei onde é. Já passei por lá quando viajei com meu pai… Ué, Teresina não é em Minas?”

- “Sim, tem uma cota de orientadores pra nordestinos. Brincadeira, é que essa professora é a que tem mais nordestinos como orientandos, nenhum dos outros tem. Então ficou meio que uma cota de nordestinos pra ela. Fora ela, só o marido dela.”

- “Bom, não é que seja preconceito, mas a maioria dos nordestinos que a gente vê é pedreiro, porteiro, doméstica… Então a gente meio que pensa mesmo que nordestino vem pra cá pedir lote”.

- “Você trabalha naquela invasão? Nossa, só tem nordestino lá né?”

- “Olha, você fez baianada ali! Virou na contramão, pelarmordedeus!”

-“Sim, pois é, minha mãe é piauiense, ali do litoral, mas nem lembro o nome da cidade… Ela deletou da vida dela isso por causa do meu pai. Ela prefere fazer as comidas goianas que ele gosta, ter hábitos goianos que são os dele… eu nem sabia o que era essa tal cajuína que você me deu.”

Como resposta a situação descrita acima, quero tentar descrever o que é ser nordestino, pelo menos piauiense, que é o que eu sou com muito orgulho. Mas não o farei hoje. É preciso muita concentração para o que eu quero escrever e não a possuo hoje. Minha terra merece um post único e cuidadoso. Não merece ter cara de réplica, de resposta ofendida à ignorância alheia. A ignorância é má por si só. Minha terra merece post com foto, com palavras carinhosas, não merece ter discurso politizado. Ela é linda porque é. E merece ser descrita assim. E será.

Comentários
  1. Mario Resenha disse:

    Vou sempre a porto, minha familia tem casa em porto desde meus 9 anos, até hj vou lá, nunca tive o ataque dos vermes lombrigosos, que eu saiba a agua da minha casa e boa pra tudo, inclusive ficar no chuveiro olhando a movimentação da rua principaln enquanto o sol esta fraquinho.

    O Teu medico é um verme?

    *Remedio de verme deve ser tomado independente do local de seis em seis meses, ou foi uma forma de conseguir que vc tomasse.

  2. sandy disse:

    menina…e vc foi “forçada” a se tornar nordestina em Brasília? hehehe

    um excelente historiador de Recife diz que “nordeste” é coisa de “sulistas”, ele mesmo é pernambucano.!

    dê aos ignorantes o bueiro! foi vc que passou no concurso da city deles

  3. saturnojr disse:

    mas eu acho que idéia permanece! assumir a etiqueta pra mostrar como ela é isso mesmo pros outros (os do meio pra baixo), “etiqueta”.

    acho que vc deve continuar.

    talvez eu escreva alguma coisa a respeito tb, inspirado na sua pessoa.

    beijos

  4. saturnojr disse:

    ju, talvez eu não tenha sido claro. vc não está estereotipando. pelo contrário, vc está mostrando o estereotipo nos outros. isso é que é o legal.

    É tipo como se vc dissesse: “sou nordestina, mas meu ‘nordestino’ não é o que vcs chamam de ‘nordestino’, porque o que vcs chamam é isso aqui, feito de ignorânica e estupidez”.

    e a partir daí vc pensa no nordestino que vc é. A meu ver vc tá só começando. E o começo foi muito bom!

  5. jose xiri de souza disse:

    Imagine um cara que aos dezoito anos sai do sertão da bahia e vai para sp, hoje 26 anos depois, morador de campinas SP contador economista pai ateu nordestino de peito inflado. Cara relaxa, quer saber, tem muitos pernambucanos que não querem ser nordestinos, tem muitos bahianos que não querem ser nordestino, minha filha é uma arabe por linha materna, minha filha é uma nordestina pela linha paterna.Existem preconceitos dentro do próprio nordeste, viva sua vida nordestina do seu jeito, cada um faça a sua parte, assim teremos um nordeste maravilhoso. Peço aos nordestinos que vão a luta estudem mais e pratiquem menos religião. Pois religião para quem tem pouco estudo, vira um brutal instrumento de dominação que não nos leva a evolução alguma, e quem não evolui é esquecido numa sociedade competitiva como a nossa. Quanto aos demais Brasileiros, tenho a dizer, Nordestino é um povo, não somos africanos, não somos indios, não somos europeus, somos resultado da formação histórica de uma região. Deve ser triste aquele que nasceu no brasil e se orgulha de ser italiano, alemao etc etc, para mim são os caras que gozam com o pau alheio.

    • julianna disse:

      Poxa, adorei o comentário!
      Conheço mesmo muita gente que “goza com o pau alheio” hehehe

    • Fabio Vasconcelos disse:

      Jose, você fez um grande, maravilhoso comentário.

      Sou pernambucano, moro na Austrália, detesto certos hábitos lá do Recife assim como alguns das pessoas aqui na Austrália. Dito isso, somos livres para vivermos nossa pernambucanidade ou nordestinidade da maneira que melhor nos convier.
      Religião é uma merda mesmo quando o sujeito guia sua vida pelo padre ou pelo pastor. Sejamos livres e levemos nossas vidas livremente, no campo das idéias, sem que isso interfira na vida alheia de maneira negativa.

      Um abraço a todos e, conforme o José disse, somos todos únicos, uma mistura de povos e línguas. Quem não entende isso e gosta de gozar com o pau dos outros não sabe de nada da vida mesmo.

  6. Carla disse:

    Sou cearense e tenho muito orgulho disso; Concordo com vc em todos os aspectos e como vc ouço piadas inúmeras de nordestinos. Fico indignada.
    Parabéns pela postagem….Deus o abençoe!!

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