Arquivo de novembro, 2008

De menino a menor

Publicado: novembro 26, 2008 em cotidiano
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A família de Douglas* apareceu a primeira vez nos prontuários em situação de risco pelos critérios do Centro de Desenvolvimento Social: tinha 5 filhos, grávida do sexto, moravam todos numa invasão. Pai? Nenhum que se saiba notícia. Nos relatórios do CDS dizia-se “moradia precária sem condições de habitabilidade”, “dois cômodos”, “sem fossa séptica”. O CDS investigou, a família recebeu o seu primeiro benefício. A mãe, um tanto apática de sua situação, tirou os documentos necessários e continuou a vida. Em 2001, numa visita para conferir o que a família em situação de risco fazia com a grana do benefício, a técnica de referência pergunta sobre o Douglas, naquela ocasião com 8 anos. A mãe diz que ele está sumido há 16 dias. “Mãe afirma que ele está freqüentando as ruas do Plano do Piloto”. O CDS orienta que ela faça um boletim de ocorrência. A família continua a receber o seu benefício.

2002, 2003

Durante os dois anos seguintes, o CDS acompanhou a família, distribuindo vales transporte quando a mãe do menino pedia, ou uma cesta básica aqui e acolá.

2004

Agora com 11 anos, novamente a mãe procura o CDS e avisa que Douglas está sumido de novo. “Quanto tempo?” “3 meses”. Diz que sempre anda pelo bairro X alguns dias e depois volta. Cheira tinner, fica com uns meninos lá…

O CDS orienta a fazer um novo boletim de ocorrência e orienta sobre a importância de ele estar em casa. “Está freqüentando a escola?” “Quando ta em casa ele até vai… mas não dura muito tempo lá não”.

Instituição de proteção a criança apreende menino em situação de risco nas ruas da cidade. Manda menino de volta pra casa. Menino passa 3 semanas em casa e volta pra rua. Em visita à família, técnico de referência pergunta sobre o menino: “Nem sei, ta na rua de novo. Aquilo num pára quieto”. Documenta-se tudo no relatório, posteriormente no prontuário da família.

2005

Menino é apreendido novamente por instituição de proteção à criança. Todas as instituições já sabem da situação de risco do menino e da família. Mãe está grávida do sétimo filho. Todos os relatórios técnicos encaminham a família e o menino umas para as outras, com discurso indignado de é uma situação de extrema miséria, pobreza e que merece atenção das autoridades. O menino é encaminhado para abrigo de menores. Começa a freqüentar a escola e a cumprir as normas do abrigo. Fica 3 meses no abrigo, com o acompanhamento técnico adequado, freqüentando a escola e tendo um desempenho dentro da média. Tudo documentado em relatórios e anexado ao prontuário. O abrigo entende que é hora do menino voltar pra casa. O menino nega-se. Avisa que a mãe o espanca e que não se entende com o padrasto, esse alcoolista (já constatado e devidamente registrado no prontuário). Avisa que não quer voltar. Pede pra ficar no abrigo. É encaminhado para sua família, como prega a teoria ser o mais certo a ser feito. O menino fica 3 semanas em casa. Freqüenta a escola. Findos os 3 meses, volta pra rua e continua a cheirar tinner.

2006.

O menino continua evadindo de casa, passa tempos fora de casa, volta quando fica doente. Evade quando fica bom. Teve pneumonia várias vezes.

Final de 2006

“O menor Douglas Silva* está sendo encaminhado para esta unidade para cumprir medida socioeducativa de Liberdade Assistida. Infração: furto”.

Primeiro atendimento: a unidade faz visita domiciliar para convocar mãe e filho. A mãe diz que ele não está e não sabe de seu paradeiro. Segunda convocação: mãe agenda atendimento. Não comparece e não justifica. Terceira convocação: mãe comparece, mas afirma que o filho não pode ir porque estava na escola. Mãe afirma que o adolescente é usuário de drogas e já comete pequenos furtos desde que freqüenta as ruas do bairro X, para cheirar tinner. Foram dados vales-transportes para comparecer ao segundo atendimento e orientado da importância do cumprimento da medida, que pede que o adolescente esteja matriculado na escola, participando de cursos profissionalizantes e comparecendo aos atendimentos com os técnicos.

Segundo atendimento: nunca aconteceu. Desde os primeiros contatos, todas as vezes que o adolescente é convocado, sua mãe desconhece seu paradeiro. Deve-se levar em consideração que a unidade ficou sem carro e sem telefone durante quase 1 ano.

“Ofício ao MM. Juiz da vara da infância: sugerimos (porque ninguém pode solicitar nada a um Juiz, só sugerir, salvo sua melhor contemplação) que o adolescente seja advertido pelo não cumprimento da medida. Advertir é o Juiz chamar o adolescente para uma conversa séria, como um pai que chega de noite e vai tirar satisfações de suas traquinagens durante o dia. Silêncio da Vara da Infância.

Nova visita domiciliar, novo relatório. Sugerimos novamente. Novo silêncio. E assim por mais uma vez se repetiu.

Nova visita domiciliar, novo relatório, o adolescente está sumido há 3 meses novamente e está jurado de morte na invasão onde mora a mãe. Comprou droga para vender e não pagou, a mãe acha. Mãe quer entregar o menino, que foi pego de novo na DCA (Delegacia da Criança e do Adolescente). “Pra ver se vocês dão um jeito, chama ele pra conversar, ou leva logo pro abrigo”.

Novo relatório enfatiza apatia da mãe com relação à situação do filho e sugere abrigamento. Abrigar é pôr sob a tutela do Estado. O Juiz é seu pai agora. Novo (velho) silêncio da Vara da Infância.

Nova visita, novo relatório, velho sumiço de Douglas. Velho silêncio do pai/juiz. Muitos filhos.

2008

Nova técnica de referência. Novo concurso. Sangue novo. Novas visitas, novas convocações. Novos planos para situação de risco da família.

Nova gravidez da mãe. Oitavo filho. Velho sumiço. Velha apatia “nem sei dele… tá sumido…”.

Novo relatório. Pedido de explicações para Vara sobre silêncio. Arrogância ingênua e bem intencionada do sangue novo. “E agora?” Velha técnica responde: “Esperar a resposta da Vara.”

Detalhe do prontuário a passar despercebido pelos 8 técnicos que acompanharam a família desde 2001:

O menino começou a evadir de casa assim que seu irmão mais velho foi assassinado na porta de casa.

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*nome fictício

vencedor-menino-do-rio

acontece…

Publicado: novembro 17, 2008 em Sem-categoria

0033

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recorrência = normalidade

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Walk On

Publicado: novembro 13, 2008 em inícios... u.u

O meu olhar correu macio sobre o post do Pedro, datado de seu aniversário (parabéns de novo!). Pedro me inspira, hehe, não sei se para o bem ou para o mal!

O que não se pode deixar pra trás é uma pergunta chave pra quem deseja partir. E esse sentimento, partir, é tão controverso quanto querer ficar. Brasília tem muito disso, pessoas que partem e que chegam a todo instante, e o segredo da cidade é que é feita dos pedaços de caminhos das pessoas que deixaram suas casas e vieram aqui construir também novas casas, novos lares. As pessoas sofrem saudades avassaladoras, lutos de pessoas e lugares perdidos, deixados para trás, mas que permanecem na lembrança e no coração. Mas, eventualmente, toda essa mudança é para o bem. Não acho que toda essa busca resuma-se a dinheiro. É, muito verdadeiramente, o mote principal, o estopim da jornada, daqueles que deixam seus lares, afinal, nesse país, precisa-se crescer. No entanto, algo mais se esconde nessa premissa do “ir-se embora” que não está muito claro para aqueles que ainda não partiram. Partir é, na verdade, chegar. Chegar a um destino seu, todo novo. Ou chegar a vários destinos diferentes, a cada espaço de tempo percorrido. Enquanto o espaço é a distância e o tempo contado por quantos meses não vejo minha família, o espaço/tempo percorrido congrega uma pessoa nova que está a se formar. Isso não poderia ser feito perto de casa, da minha família e amigos? – me perguntaria Pedro. Não, acredito que não. Enquanto nos mantemos nos mesmos hábitos, ambientes e comportamentos, sobra muito pouca variabilidade a somar. Navegar é preciso, segundo Pessoa. E essa navegação é que engrandece a alma, antes parada no marasmo do cais do porto. O balanço das marés serve para ser observado por aqueles que apreciam, mas o preferem longe, a uma certa distância segura de si mesmos. Para outros tantos, as ondas são para serem conquistadas, a cada passo, entrando sem medo no mar, apenas com a cautela necessária para não se afogar. E a cada momento, muda-se a minha embarcação e meu destino, e sempre que ganho um caldo, e o mar me derruba, nado até achar uma nova embarcação e um novo destino. Poderia ter escolhido ficar no porto. A beleza das marés não me passaria despercebida, poderia ver suas mudanças e belezas a qualquer momento da segurança do meu lar. Mas as marés me desafiam e me sussurram no ouvido que eu posso ir até elas. E meu lar pode estar lá, no meio delas, em diversas embarcações, em diferentes portos.

A minha parte dessa música é

“And I know it aches
And your heart, it breaks
And you can only take so much
Walk on”

E seguir em frente é só o que me atrai.

E esse espírito bandoleiro que me persegue sofre seus reveses, e sente falta, e chora saudade, e se apega de repente em cada porto, mas sempre me chama de volta às marés. Sempre me solta, porque as amarras são muito frágeis para segurar quem se volta para o inesperado o tempo inteiro. E é bom sentir-se assim, sempre renovando. É também solitário. Mas é bastante do que sou, do que quero ser.

Lembrei do Pedro dizendo o quanto sou contraditória e extremamente volúvel, eu diria volátil, evaporando entre os dedos das minhas próprias verdades, que as juro tão sólidas e imutáveis pedras. Hehehe… Mas, é como ele diz mesmo: padeço do mal da metamorfose, um dia lagarta, noutro borboleta.

Mas concordo com meu querido amigo: há coisas que nunca serão deixadas para trás. E aí vem a parte da música que acho que deve ser a favorita dele… ou que pelo menos responde à pergunta de seu post:

“And love is not the easy thing
Is the only baggage that you can bring
Love is not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can’t leave behind”

Força e luz a todos nós, bandoleiros de coração, marinheiros de asfalto!

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Walk On
U2
“And love is not the easy thing
Is the only baggage that you can bring
Love is not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can’t leave behind”

And if the darkness is to keep us apart
And if the daylight feels like it’s a long way off
And if your glass heart should crack
And for a second you turn back
Oh no, be strong

(Chorus)
Walk on! Walk on!
What you got, they can’t steal it
No, they can’t even feel it
Walk on! Walk on!
Stay safe tonight

You’re packing a suitcase for a place
None of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away
A singing bird in an open cage
Who will only fly, only fly for freedom

(Chorus)
Walk on! Walk on!
What you got, they can’t deny it
Can’t sell it, or buy it
Walk on! Walk on!
You stay safe tonight

And I know it aches
How your heart it breaks
You can only take so much
Walk on! Walk on!

Home!
Hard to know what it is
If you never had one
Home!
I can’t say where it is
But I know I’m going
Home!
That’s where the hurt is

And I know it aches
And your heart, it breaks
And you can only take so much
Walk on!

You’ve got to leave it behind:

All that you fashion
All that you make
All that you build
All that you break
All that you measure
All that you feel
All this you can leave behind
All that you reason, it’s only time
And I’ll never fill up all I find
All that you sense
All that you scheme
All you dress-up
All that you’ve seen
All you create
All that you wreck
All that you hate

voices

Publicado: novembro 12, 2008 em Sem-categoria
calvinharodotira485
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Os três posts são pra vc, Cacá…a coisa bonita que você me pediu pra dizer…:)

calvinharodotira4831