Arquivo de dezembro, 2008

Hoje podemos ser felizes…

Publicado: dezembro 24, 2008 em cotidiano

frei-serafim-a-noite-natal

… porque já é Natal,

Porque o coração bate mais tranqüilo,

Porque dá vontade de abraçar as pessoas,

Porque é diferente, mesmo sabendo que a nossa cultura nos criou assim,

Porque é a hora de reprogramar a vida,

Porque a vida fica mais luminosa no Natal,

Porque tenho vontade de dar presentes,

Porque a ceia é uma delícia,

Porque as pessoas estão mais sorridentes,

Porque fez sol hoje, depois de mais de duas semanas de chuva,

Porque é hora de reencontrar,

Porque as esperanças se renovam,

Porque espero te encontrar,

Porque vejo rostos familiares,

Porque é hora de pesar de novo o que aconteceu e fazer novas escolhas,

Porque tudo pode ser diferente, podemos escolher diferente, e ninguém vai nos cobrar por isso.

Afinal, é natal.

Publicado: dezembro 22, 2008 em inícios... u.u

so-eu21

No lago zulu
O casulo de seda
Da largalagarta
Do corpo de estrela

Virada no vento
Não vai mais rasteira
Terá vida nova

Farfalla ligeira
Farfalla ligeira borboleta
Farfalla
Ligeira


Levada na cor
Recorta no ar
O cheiro da flor
Ruído do mar

Mas foge de mim
Na borda da mesa
Ou posa no prato de louça chinesa


Farfalla ligeira
Farfalla ligeira borboleta
Farfalla ligeira

Dia branco

Publicado: dezembro 21, 2008 em cotidiano

editado1

Acordo. É tarde já. Dia branco, nuvens cobrindo o sol que deveria estar aqui. Preguiça. Sensação ruim, acho que tive um pesadelo. Será? Não lembro. Levanto, olho em volta, nada de diferente, mas a sensação persiste. Vou à cozinha, faço café, tomo café. Sentada no meu banquinho analiso a manhã que se desenrola, branca e sem sol. Sensação ruim. Peito doído, se eu fosse crente em alguma coisa, diria que algo de ruim vai acontecer ou já aconteceu.

Lavo minha xícara, troco de roupa. Olho ao redor. Tem algo faltando. Escuto um zunido,um zumbido que não me é estranho, ao contrário, é bem familiar. Procuro com os olhos, com as mãos, por todos os cantos. Olho aqui e ali, dentro do guarda-roupa, atrás da geladeira e eis que atrás da cama, encontro o que procuro. Meu gafanhoto verde, zumbindo, gemendo, definhando. Olho com uma dor que não pensei que existisse no mundo, e que não desejava pra mais ninguém nessa vida, meu gafanhoto mutilado, perninhas arrancadas, asinhas quebradas, antenas amassadas. Quem terá feito isso, meu deus?, penso eu, transtornada. Seria alguém capaz de tanta maldade? Era meu bichinho de estimação e mal nenhum fazia, por que atacá-lo? Ainda ontem o vi e estava tão bem, não pode ter acontecido tão de repente.

Me sento no chão e o acolho nas mãos, pensando e chorando, de uma tristeza injusta, muito injusta, não há méritos para tamanha maldade. Quando de soslaio enxergo o outro bichinho, aquele bichinho cinza que tinha aparecido há algum tempo atrás. Ele me olha, parece constrangido. Sua boca ainda está verde do sangue do meu gafanhoto. Não parece triunfante, mas resoluto. Sua serenidade me deu ânsias, parecia tranqüilo, ao mesmo tempo que um pouco consternado com meu sofrimento. O bichinho cinza engoliu meu gafanhoto. Devorou-o sem pena. E ainda veio me mostrar que havia sido ele mesmo o autor dos acontecimentos. Meu coração tão dolorido não conseguia entender quão injusto pôde ser esse bichinho cinza, e como tão compreensivo pôde me olhar depois de tudo que passou.

Meu gafanhoto suspirou em minhas mãos e suas anteninhas caíram de lado. Chorei as lágrimas mais confusas de minha vida, injustiça era como se chamava minha dor. Lutei muito por esse gafanhoto e agora ele se ia sem que nada eu pudesse fazer. Como seriam as coisas a partir de agora, era o que tentava imaginar, enquanto banhava o que sobrara dele em minhas mãos. De um susto, algo roça em minha perna, eu me viro e olho pro chão. Uma anteninha verde balança pra lá e pra cá e me olha de baixo. Olho bem e tento entender: há outro gafanhoto verde? Mais na frente surgem mais dois, atrás da geladeira, embaixo do sofá. Mais um perto da TV. Olho, espantada, meu gafanhoto morto nas mãos, e volto a olhar aqueles outros que aparecem por todos os lados.

De repente, algo ou alguém,me sopra a idéia: são todos meus. Todos se revezavam em aparecer aqui e ali, pra que eu nunca me sentisse sozinha. Fito bem de pertinho esse um que me roça a perna. Na sua carapaça verde e delicada há uma pequena inscrição. Procuro, surpresa, em todos os outros e cada um deles também possui sua inscrição própria. Todos são bichinhos responsáveis por uma parcela da minha vida; funcionários de uma imensa companhia, responsáveis cada um por seu próprio setor. Uma idéia me vem à cabeça e um estremecimento me percorre o corpo. Olho bem de perto os restos de meu gafanhoto que se fora, e percebo qual era sua responsabilidade sobre mim. Choro, sentida, magoada, mas calma e delicadamente.

Seguida pelos outros gafanhotos, carrego aquele, tão especial, para sua última morada. Me despeço e volto pro meu lugar. De longe, o bichinho cinza me olha, fixamente. Ele quer que eu saiba que ele está aqui, ao meu redor. Seus olhos não são maus, são firmes, duros, mas solidários. Com surpresa, vejo que ele se aproxima, sem desviar seus olhos dos meus. Me entrega um pequeno cartão que diz:

ALGO PRECISA MORRER

PARA QUE ALGO NOVO NASÇA.

VOCÊ PRECISA GANHAR UM NOVO

GAFANHOTO.

Olhou-me bem fundo nos olhos, e saiu, dando as costas pra tudo aquilo.

Segurei o cartão bem forte e pensei que um novo gafanhoto seria difícil de conseguir… mas, não. Não posso conseguir. É igual escapulário: você tem que ganhar, alguém tem que dar um de presente pra você.

Pensando em tudo, faço café, tomo café, troco de roupa. Deito, fecho os olhos molhados, durmo.

Publicado: dezembro 19, 2008 em cotidiano

calvin_haroldo_0014..

Amo Natal…
e o presente que eu mais gosto de ganhar é esse aí do Haroldo…
ele é o sortudo da história, rs.

eu também…

Publicado: dezembro 12, 2008 em cotidiano

0046-1

você tem a mim

Publicado: dezembro 11, 2008 em Sem-categoria

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Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Se espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor (você tem a mim)

O teu corpo moreno
Vai abrindo caminhos
Acelera meu peito,
Nem acredito no sonho que vejo
E seguimos dançando
Um balanço malandro
E tudo rodando
Parece que o mundo foi feito prá nós
Nesse som que nos toca

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Pôr do sol e aurora
Norte, sul, leste, oeste
Lua, nuvens, estrelas
A banda toca
Parece magia
E é pura beleza
E essa música sente
E parece que a gente
Se enrola, corrente
E tão de repente você tem a mim

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Se espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma
Você tem a mim

não tome meu tempo

Publicado: dezembro 10, 2008 em cotidiano, inícios... u.u

Como eu odeio pessoas equivocadas.

Trabalhando num meio onde tudo vai contra você: o Estado, a desestrutura familiar, a ausência de pais, as drogas, a miséria, a ausência de valores… Ter que agüentar pessoas equivocadas, que levantam a bandeira da redução da maioridade penal, com posturas antiquadas de repressão a menores, me irrita.

Me estressa ter que discutir com pessoas que sempre enxergam as crianças e adolescentes dos outros como “menores sem jeito, tem que ir para a cadeia” e os seus próprios como os dignos de cuidados. Me irrita ainda mais saber que a ausência da figura do Estado, a política nojenta desse país acaba por reforçar a figura do adolescente que “não tem jeito, bandidinho”. Depois de observar zilhões de prontuários e confirmar que a história de risco e a ausência da presença de qualquer estrutura, seja de autoridade, seja familiar, corrobora com a situação do adolescente em conflito com a lei, me perturba alguém me dizer, me afirmar, me contestar, que esse adolescente é assim “porque é mesmo”. Argumento ignorante e chinfrim. Respeito argumentações, respeito idéias embasadas e se você as tem e quer me contestar, seja bem-vindo. Mas se você não as tem e quer me passar a banca do “eu sei, porque estou aqui a mais tempo do que você”, eu digo que a sua ignorância, então, é tão velha e feia quanto você.

Me irrita profundamente se, por desconhecimento ou ignorância, ou por ausência de criticidade mesmo, alguém reproduz velhos conceitos sensacionalistas difundidos pela mídia. A mídia não é embasamento para argumentação, já se deveria saber disso. Mas a ignorância retumbante da nossa população, inclusive da chamada “elite cultural”, que tem nível superior, me irrita, me aborrece de tal forma que me sobe o sangue. Umas dessas ignorâncias é propagar por aí que o adolescente não é sancionado, não responde por seus atos infracionais. O adolescente responde. O Estado é que é ineficaz em ensiná-lo regras, normas, limites. E sua família falhou antes, e o Estado falhou com sua família, e a sociedade falhou e todos falhamos. E continuamos a falhar, ao vitimizar os “nossos” e demonizar os “outros”. Não se sabe quando os “seus” serão os “outros”.

Por fim, discordo desses argumentos ignorantes e propagados pela mídia, até que você leia e acompanhe os prontuários/histórias que eu li e me diga que alguém tentou recuperar esses adolescentes e não deu certo. Ninguém tentou. Fato: ninguém tentou. Os técnicos foram, até então, ineficazes, inócuos, com pseudointervenções que apenas descrevem o que se pode ver a olho nu. Enquanto não houver um Estado eficaz e uma sociedade atuante, não me fale sobre redução de maioridade penal. Não venha com argumentações tão profundas quanto um pires. Não tome meu tempo.