Arquivo de abril, 2009

O circo é aqui

Publicado: abril 27, 2009 em cotidiano, O que eu não entendo...

Semana passada a câmara dos deputados passou por um dilema cáustico: os parlamentares tem ou não direito de utilizar a verba de passagens aéreas para trazer familiares a Brasília? Em suma, devemos eu e você pagar para que os deputados não se sintam solitários, nessa cidade moldada para a solidão?

No meu edital, quando prestei concurso para esta metrópole roceira, não havia nenhuma referência aos meus familiares. Ainda no quadro de gratificações do GDF não há nenhuma que seja descrita como: auxílio para não se sentir só – traga sua família!

Fico ainda admirada com esses meus vizinhos parlamentares que, de tanto subtraírem o público, acabam achando que este é o púbico da mãe deles, e argumentam com tamanha propriedade e certeza sobre o direito de meter a mão no que é alheio. Estes, digamos, profissionais, elegeram-se com o intuito de morar em Brasília, de estar em Brasília, escolheram, como eu escolhi, estar aqui para trabalhar. Se a esposa está longe, traga-a. se o filho está longe, traga-o. Afinal, vocês profissionais deste circo que é o Congresso, ainda tem a vantagem de ganhar um salário de 16 mil reais, do qual podem comprar uma “tarifa light da TAM” a cada 15 dias, enquanto nós, reles servidores, juntamos o erário para garantir o “promo da GOL”, no Natal.

Palhaçada, teu circo é Brasília.

Ah, a Esta Alma Que Não Arde

Publicado: abril 22, 2009 em inícios... u.u

AH, A ESTA alma que não arde
Não envolve, porque ama,
A esperança, ainda que vã,
O esquecimento que vive
Entre o orvalho da tarde
E o orvalho da manhã.

(fernando pessoa)

morar só.

Publicado: abril 21, 2009 em cotidiano

Despertador no celular. Olho aberto, claridade que cega, às vezes. Frio que encolhe debaixo da coberta, às vezes. Por que não fechei a cortina ontem? Fez calor, foi por isso. Espreguiça daqui, estica de lá, roda pela cama de casal com molas ensacadas individualmente até o soneca do celular tocar de novo. Vou me atrasar. Banheiro meu, calcinha pendurada no chuveiro, maquiagem na bancada da pia. Liga a TV, Renato Machado me deseja um bom dia sisudo.

Meu sofá é grafite, não preto, nem cinza: grafite. Olho pro sofá, volto pro quarto, escolhe-escolhe de roupa, passa roupa, ficar pronta pra sair, rápido. Toc-toc-toc, barulho de salto pela casa, de manhã cedo, o vizinho deve me odiar, rs. Faço piadas comigo mesma e com o clima, o atraso, o vizinho, a TV, e sorrio sozinha. Meu deus, a água no fogo já ferveu. Café, leite, biscoito, salada de frutas comprada no supermercado. Não dá pra comprar fruta e verdura, sempre estraga, penso. O que vou almoçar? Já tirei o frango do congelador? Ah, vou pra UnB hoje…almoçar na rua de novo. Já enjoei enrolado de queijo pro almoço… Meu deus, olha a hora… fecha janela, fecha cortina, acho que vai chover… não, não vou levar guarda-chuva… Batom, espelho, desliga a TV, olha pro AP, tudo na bolsa, pega chave, tranca porta.

Elevador, elevador, sobe logo. Atrasada… não tenho dormido bem, queria dormir mais. Vou no elevador de espelho pra ver se a roupa ficou boa. Que merda não ter espelho grande em casa, preciso de um urgente. Entra no elevador, o vento frio corta o rosto. Ainda bem que eu trouxe casaco. Caminho da rua, o nariz arde até a estação do metrô. Incrível como um sol tão forte se mistura com um vento tão gelado. Preciso voltar a correr no parque, a andadinha até o metrô já está cansando. Amanhã eu vou… Metrô, olha a pamonha, DVD pirata mais barato. Rápido, rápido, o trem está chegando. Passa catraca, corridinha descendo escadas. Ai que bom que está vazio hoje. Cadê meu mp3? Todos de mp3. Ninguém anda mais sem um mp3 no metrô. Um mp3 e um livro. O que será que aquela pessoa está escutando? Iron. Aquela é Jorge e Matheus, com certeza. O senhor de pano passado lê um livro Sobre a conquista dos fiéis. Estiquei o pescoço, mas não consegui ver mais. Ninguém se olha. Olho todo mundo. Mania de perscrutar as pessoas. Estação Feira. Muito rápido, já cheguei. Keane, depois John Mayer até o trabalho, dependendo do humor do dia. Trilha sonora do House MD. Deixa eu achar aquela música… pronto, Orange Sky… well, I had a dream, I stood beneath an Orange Sky..in your Love, my salvation lies in your love… essa música podia ser gospel também…Gustavo me disse que é tema de Prison Break também…

Trabalho, trabalho. Bom dia, mãe esperando, menino infrator, usuário de droga, moça quero arrumar um emprego, quero sair da droga. Quero sair da droga não, moça. Que é que você usa? Eu uso o que tiver, só não uso maconha, maconheiro não sou não. Cheira pó? Fuma crack? Injeta? Cheiro até pó de lâmpada, a senhora sabia, moça? Mas maconha, não. Telefone toca, queria falar com a doutora. Ow, minha filha, ele foi preso ontem, ta no CDP… não sei mais o que fazer. Ow doutora, a senhora não atende particular não? Ele ta indo tão bem, a gente está se entendendo melhor, parou sim, parou de fumar, nunca mais peguei ele com nada. Ow, minha filha, eu te amo, viu? Eu te amo, pelo que você faz pela gente. Minha filha você é muito novinha, não entende nada, não…eu que sou mãe, estou nessa luta há muito tempo…esse blá blá blá num adianta nada. Mande internar ele, porque eu não aguento mais não, só assim.

UnB. Enrolado de queijo, não. Esfiha de frango pro almoço. Refrigerante, não. Suco de laranja. Só tem minute maid. Ar maria… me dá. Texto, texto. Lê, lê. Aula, aula. Comportamento verbal, tato, mando, conceito, experimento, método indutivo, dedutivo, análise experimental do comportamento. Fome. Eu podia fazer um projeto aplicando isso. Sala lotada. Quadro de giz ainda na UnB? Nossa… Aula de alemão na sala ao lado? É Francês, diz a colega. Pedaço de frase dito pela orientadora me acorda do devaneio: …enquanto tanta gente passa fome no Nordeste… Hum?! Eu pensava que se passava fome em todo canto, mas parece que no Nordeste é mais. É que aqui tem onde conseguir recursos, tem onde comprar, lá não tem, justifica a colega. Pasmo. Do meio pra baixo todos pensam que nós do meio pra cima somos uns miseráveis. Preciso escrever um post sobre isso. Ah e sobre o “sistema de cotas” de orientadores para nordestinos aqui também. Vou anotar pra não esquecer.

Quer carona? Nossa, demais! Metrô, música, cabeça pesada, olho fechando, sono, fome. Se eu sou nordestina, como não passaria fome? Sorrio sozinha da ignorância dos sábios. Estação arniqueiras. Casa, casa, doce casa. Olha a pamonha, odeio pamonha. Padaria. Não posso comprar muito, vai estragar. Caro, caro, tudo caro. Senhor de idade puxa papo, sorriso amigável. Nossa, que bom conversar. Bom descanso pra você, pro senhor também. Descanso. 19º. Chave, porta, luz, sofá. Aahh… tirar o sapato é orgástico, quase… Só quase, rs. TV ligada, notebook ligado, internet, o que aconteceu quando eu estava fora. Banho quente…bom… jantar, falar com a mamãe e o papai, a webcam está funcionando de novo! Afilhadinhos, ai criança é muito bom né? Vou jantar, estudar, dormir… Bença mãe, bença pai.

Janela da sala. Adoro essa vista. Ali é o parque, ali é a casa do governador. Nenhum prédio tampando a vista, por enquanto. Ventinho frio, que foi e voltou o dia inteiro. Barulho no bar de baixo, lá naquelas luzes é uma estrada que liga as cidades ao Plano. Olho pra cima. Estrelas, olha só. Ventinho frio no rosto. Quando tiver visita, vou mostrar essa vista… Frio.

Meia-janela do quarto aberta, pijama, edredon, minha cama, que boa… amanhã vou tentar acordar mais cedo… Quero ir a São Paulo… ai, será se eu aprendo controle de embreagem algum dia?… Quero ir a São Paulo… amanhã tem atendimento? Não, amanha é dia de UnB de novo, só trabalho à tarde… Saudade de todo mundo… Saudade do que nunca houve… ai, que cama boa, vale cada prestação… sono…sono…sonho…

Sometimes, sometimes
My mind is too strong to carry on
Too strong to carry on
When I am alone
When I’ve thrown off the weight of this crazy stone
When I’ve lost all care for the things I own
That’s when I miss you,
You who are my home
And here is what I know now
Goes like this..
In your love, my salvation lies in your love…

clark-little

Não. Não é computação gráfica: chama-se Clark Little, um ex-surfista que tira fotos do lado de dentro das ondas…

Qualquer um com essa visão do mar, merece ser divulgado. Qualquer um, não. Porque não é qualquer um que tem esse olho, que vê A beleza e é capaz de traduzi-la em imagens pra nós, meros mortais…

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E porque eu sinto muita saudade do mar…doída e boa.

Para mais fotos: http://www.clarklittlephotography.com/

clark-little-103

menina-e-borboleta

…  todo mundo é dois

e só

eu que sou

vários?

(, ) coloque a vírgula onde achar conveniente…