Arquivo de agosto, 2009

raiva

calvin

bebê zangado (mais…)

A vida é uma sequência de imagens, com uma trilha sonora ao fundo. Trilhas adequadas, trilhas inadequadas. Mesmas cenas com trilhas diferentes, com um arranjo diferenciado a cada momento. Cenas em mudo, pra grandes tensões, trilhas divertidas para situações inóspitas, cenas congeladas e tons que se mantém. Se meus olhos fossem câmeras, esse filme não passaria na sessão da tarde. Essa trilha não tocaria nos rádios. Seria inusitada e instigante. Seria impressionante e difícil de esquecer. As mães pediriam a censura, os filhos assistiriam escondidos. E todos falariam com certa intimidade, mas sem sequer ter assistido ou ouvido. E todas as pupilas se dilatariam ao menor contato com a película proibida, todos os tímpanos se tornariam mais sensíveis à trilha inusitada. As sombras seriam mais escuras, as luzes mais fortes, as cores mais intensas e os contornos mais vivazes. Os agudos mais agudos, os graves mais graves e todos os timbres mais suaves e intensos, cada qual em seu momento. E todos os detalhes seriam cruciais. E todos saberiam disso, se meus olhos pudessem filmar.

esquadros

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores.

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Pra sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus…

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome…

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Chuva anunciada e sutilmente cumprida, Adriana Calcanhoto se apresenta hoje em Brasília. A maior surpresa não está no repertório de Maré, um disco que fala sobre o mar, em todas as suas nuances, mas no versátil Domenico Lanceloti que trocava de instrumento e de ritmo como quem pisca os olhos. O músico deu fluidez ao show e permitiu que a experiência sonora fosse tanto mais vasta quanto intensa.

Tão estrela do show quanto Adriana foi Bruno Medina, ex Los Hermanos, a quem Adriana apresentou por último e a quem sempre se referia no palco, com gestos e acompanhando seus ritmos. Ao final, Adriana inclusive tocou Deixa o verão pra mais tarde, dos Hermanos, que eu adoro!

E, por fim, Adriana, que parecia “desmanchar-se em nuvens” (expressão cunhada pelas amigas que me acompanhavam) quando falava e cantava.

Sequência das músicas, não lembro…Saímos pra beber depois do show, então… (acabei de chegar)…. Mas, lembro as mais marcantes pra mim: algumas bem clichês, mas não menos lindas, como Vambora, Marítimo, Mentiras, Esquadros… ai, todas lindas.

Mas vou por aqui a que mais me marcou no show: Seu pensamento.

Gostei muito…

Obs.: Perdoem os erros, acabei de chegar mesmo, rs.

seu pensamento

A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na pedra
ou vento no cabelo?

A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?

Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?

A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?

A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?

Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?

verdades

Publicado: agosto 13, 2009 em sábias sapiências da vida pós moderna

A ignorância é, às vezes, uma benção

e a sabedoria, um fardo.

s_sabedoria_chie

Descobri que minha tatuagem significa realmente aquilo a que se propunha. Ainda bem. Mas, consigo ver que não foi um pedido muito consciente aquele que fiz ao velhinho monge budista, naquela praça da Liberdade, em São Paulo, quando ele me perguntou, traduzido por sua esposa japonesa velhinha: “qual o pedido? Faça um pedido!”

Sabedoria não é um pedido simples. Também não é de todo ganho. Tê-la é uma construção que dura toda a vida e não se completa. E haverá momentos em que se desejaria não tê-la, porque a ignorância seria um alívio. Saber as coisas pode parecer um dom, um presente, mas transforma-se na responsabilidade mais indesejável quando as coisas apenas são e não se pode tocá-las ou mudá-las.

E por mais bonitas que sejam as coisas que não se deixam conhecer, apenas são, apenas existem no mundo, sobra a inquietação daqueles fadados a saber. Saber é o maior desafio. Saber é a maior angústia. Invejo aqueles que não precisam saber. Não aqueles que não sabem, esses não. Muitas coisas seriam diferentes neste mundo se as pessoas soubessem mais. Invejo aqueles que não precisam saber, que não anseiam pela resposta.

Fiz um pedido incauto. E agora as perguntas me perseguem, e não consigo dormir à noite, sempre fazendo e refazendo milhares de perguntas, e tentando descobrir um modo de respondê-las. Sofro.

Mas, de uma forma estranha e bela, não me arrependo.

matando tempo

Publicado: agosto 3, 2009 em cotidiano

calvin7