Arquivo de setembro, 2009

Mandato de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu,
 reles
 esnobe
 plebeu
 E fora tu, imperialista das sucatas
 Charlatão da sinceridade
 e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
 Ultimatum a todos eles
 E a todos que sejam como eles
 Todos!
Monte de tijolos com pretensões a casa
 Inútil luxo, megalomania triunfante
 E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
 Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
 Que confundis tudo
 Vós, anarquistas deveras sinceros
 Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
 Para quererem deixar de trabalhar
 Sim, todos vós que representais o mundo
 Homens altos
 Passai por baixo do meu desprezo
 Passai aristocratas de tanga de ouro
 Passai Frouxos
 Passai radicais do pouco
 Quem acredita neles?
 Mandem tudo isso para casa
 Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
 E deitem a chave fora
 Sufoco de ter só isso a minha volta
 Deixem-me respirar
 Abram todas as janelas
 Abram mais janelas
 Do que todas as janelas que há no mundo
Nenhuma idéia grande
 Nenhuma corrente política
 Que soe a uma idéia grão
 E o mundo quer a inteligência nova
 A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
 Porque aí está apodrecer a vida
 Quando muito é estrume para o futuro
 O que aí está não pode durar
 Porque não é nada
Eu da raça dos navegadores
 Afirmo que não pode durar
 Eu da raça dos descobridores
 Desprezo o que seja menos
 Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
 Braços erguidos
 Fitando o Atlântico
E saudando abstractamente o infinito."
Álvaro de Campos, em 1917

19012008552

“I sing you to me”

Publicado: setembro 8, 2009 em cotidiano, inícios... u.u

Assisti ao filme Australia. Hesitei em assisti-lo a princípio, porque pensei que seria muito longo, muito chato e pouco proveitoso, uma vez que venho evitando dramas e comédias românticas açucaradas. Enfim, assisti. E adorei. Não senti as horas passando, nem achei-o açucarado ou dramático demais, só o esperado mesmo. Simplesmente, grudei o olho na tela por 3 horas seguidas e atentei para cada palavra, cada lágrima, chorei pelo pequeno aborígene e sua mãe postiça inglesa e, claro, suspirei pelo bonitão do Hugh Jackman, o típico super-herói que todas queremos: dá uma acovardada no começo, mas no final aparece para resgatar sua família.

Duas coisas em especial acabaram por me tocar, verdadeiramente. A primeira foi a certeza que vem me consumindo nos últimos tempos de que meu trabalho deixou de ser um ganha pão e passou a ser uma missão. Missão essa iniciada há muito tempo nas polêmicas de escola, mas que tornou-se uma real necessidade. Não entenda missão por uma ação que remete a doutrinas filosóficas ou religiosas, ou algo que irá consumir todo o meu existir, sem espaço para uma vida pessoal e social desvinculada. Essa missão de que falo é o porquê de estar aqui, nesse mundo. Você, que me lê: está aqui por quê? Com que fim? Uma vez uma amiga me disse que a sua missão aqui talvez fosse ser mãe, tal a vontade que ela tinha de ter um filho e como sempre imaginou-se cuidando dele. Nenhuma das outras coisas que aconteciam em sua vida preenchiam-na tanto como a ideia de ser mãe. Isso eu considero uma missão. Acho que nem todo mundo tem uma exata, nem mesmo uma vaga noção daquilo que seria a sua missão, aquilo que preencherá sua vida de tal forma a seduzi-lo, a proporcionar tal satisfação. Algumas porque conseguem diluir essa satisfação de forma que todas as pequenas partes de sua vida preenchem espaços, e não há tanto lugar para as coisas grandes. Ou talvez, todas as coisas sejam grandes. Outras, porque nunca pensarão sobre isso. Tenho visto muitas pessoas incapazes de definir quais são seus pequenos prazeres diários, aquilo que mais lhes agrada fazer quando estão em sua própria companhia, quiçá ter uma missão.

E o que isso tem a ver com o filme? Nenhuma película que trata de violação dos direitos humanos me passa mais despercebida. Nem mesmo aquelas na qual o assunto é apenas um pano de fundo superficial para o desenvolvimento do roteiro. Tenho pensado tanto, e cada vez mais nessas questões, que já me alegro e me entristeço de perceber que já estou nesse caminho e retornar não é uma opção. Todos os dias vivenciando todas as formas de miséria humana, todas as possíveis formas de tirar a dignidade de um ser humano, tem me deixado fraca. E, apesar disso, cada vez mais certa de que o trabalho será cada vez maior. E do quanto terei que subir nessa escala governamental para que haja efeitos maiores. Para minha maior tristeza e desespero, não venho me contentando com ações pontuais, que atingem uma ou duas famílias. Tenho mania de grandeza. Sou uma megalomaníaca totalitária, isto é fato comprovado há algum tempo, rs. Penso em ações grandes, e meu sono se esvai nos delírios de grandeza de conseguir um mundo melhor. Por enquanto, estou me contentando em sonhar com os órgãos internacionais e em conhecer o MV Bill. Vamos ver até onde isso vai. Nunca duvidei da minha capacidade, já repeti várias vezes aqui que um dos meus males é a arrogância. Justamente a possibilidade de alcançar é que me assusta, ou antes, todo o caminho até lá.

Mas, como diz o pequeno aborígene da película, o mais importante é o porquê de contarmos histórias: porque elas nos deixam perto das pessoas a quem pertencemos, ou do mundo a que pertencemos. E temos que contar nossas histórias, para sobreviver a elas.

E a segunda coisa que me tocou? Bem… Essa é mais açucarada, hehe. Ouvir esse diálogo:

“I sing you to me.”

“And I’ll hear you.”

Então, vou continuar cantando por aí. Acho que tem alguém tentando me escutar.  😉

abaixo à esperteza

Publicado: setembro 3, 2009 em cotidiano, O que eu não entendo...

Depois dos desgostos de agosto, o mês de setembro parece apontar para uma diminuída nas tensões. Isso parece início de horóscopo UOL, mas na verdade, há um indício de que as coisas parecem melhorar. O primeiro dia de setembro trouxe uma primeira reunião com a CUFA: sangue novo e ideias novas pra revitalizar o trabalho. Gente que trabalha na ponta como nós, nas frentes, como dizem, e que investem em ideias claras, práticas e objetivas. Alívio na morosidade de sempre. Graças ao meu bom deus dos ateus. Reunião de sindicato e até reunião de condomínio nos dias seguintes trouxeram gás novo, esperança de que as coisas possam melhorar aqui na terra da corrupção desmedida.

Porque Brasília é a terra da corrupção desmedida. Do cafezinho à verba pública, da repartição ao condomínio, as pessoas não se preocupam em fazer o ético, o correto. A palavra de ordem é esperteza, se dar bem, ganhar vantagens. Nunca fui esperta. Sou muito inteligente, pouco modesta, muito prática, mas não esperta. Sempre odiei esse adjetivo. A síndica do meu prédio é esperta: chorou e disse que não sabia das notas frias do prédio, que tudo era fruto de sua inexperiência e boa vontade em ajudar, mas que não: não sabia de nada. Pedi a palavra: perguntei se ela era o Lula – mal assessorada e que não sabe nada de sua gestão. Ela ofendeu-se. Preciso parar de ser tão sarcástica, para que as pessoas me levem mais a sério. Também sou sarcástica – e muito. Mas esperta, nunca. Que me perdoem os cariocas, mas esse adjetivo lhes cai bem, como um estereótipo. Espero que não sejam todos assim. Até porque essa esperteza não tem identidade aqui em Brasília, serve a todos, de todas as terras. Querendo, é só aprender como faz.

Ao me reunir com o pessoal da CUFA, tive um alívio enorme de ver que existem coisas acontecendo aqui, de verdade, sem esperteza. Me traz esperança de que esse mês de setembro venha com ares novos, com menos esperteza e mais competência e trabalho ético. Estou cansada da esperteza e de sua valorização. Precisamos ver o trabalho duro, a objetividade e a competência serem mais valorizadas, ou iremos todos para o buraco. Isso ficou claro no momento Congresso que foi a minha reunião de condomínio.

Apesar de ser dia 03 já, o mês de agosto ainda não terminou pra mim. Estou indo pra casa hoje. Quando eu chegar lá, aí sim, meu mês desgosto estará enterrado. Já vai tarde.

Bem-vindo, setembro.