Arquivo de outubro, 2009

papo com o acaso

Publicado: outubro 26, 2009 em Sem-categoria

papo com deus

Subi no trono divino pra fazer algumas perguntas. Cheiro de chuva no meio das nuvens, ar rarefeito e jeito de Lucy in the Sky pra essa aventura, não boto a mão no fogo por essa sobriedade, mas fui. Velhinho de barba branca e chapéu de pescador junto a um punhado de nuvens brancas, sentado, quieto. Uma calma. Posso perguntar umas coisas? O velhinho olha com olhos de milhões de anos, pesados e escuros. Abana a cabeça afirmativamente. Quero saber uma pá de coisas que não se sabe a resposta, e quero perguntar cadê essa mágica toda que ninguém vê mais? Cadê a chuva de sapos, a invasão de gafanhotos, cadê a água virando vinho? O máximo que eu vi disso foi meu salário virando cerveja e uma turma reunida fazer 1 real de cada um comprar uma caixa da mesma. O mundo virado de ponta cabeça e o senhor aí, pescando, e com esse olhar de quem não vê nada? O velhinho nem pisca. Milhões de perguntas sobre as pessoas que morrem em vão, tiros, balas perdidas, fome, guerra, gente que julga sem saber, gente que faz maldade, gente que sofre em vão, Gente. O velhinho mudo, fita com olhos negros de universo.

Considerações frustradas, posições ateístas, céticas e cínicas, por isso que não se acredita mais em deus. Se é do destino nunca te atender nas suas expectativas, por que isso de acreditar num pescador que nem sequer fala? Melhor por tudo nas mãos da gente mesmo, assim qualquer falta e qualquer sucesso não se deve a nenhuma divindade esquisita, que uma hora bate e outra alisa. E essa história de “louvai e agradecei”? E essa coisa de “adorai”, “não pequei”, “serás julgado”? Não se pode cobrar humildade de um deus tão arrogante, hein? Voz alterada, estridente, gritos frustrados, silêncio. Voz arrastada e decepcionada. É por isso que não se acredita mais. Sem gestos, olhos grandes e redondos de buraco negro fitam a cena.

A cabeça baixa se levanta por uns instantes e se depara com o velhinho pescador de cabeça baixa, por sua vez. Parece frustrado com tantas perguntas sem resposta. Achava que deus tinha a sabedoria infinita das respostas. Me fita novamente, depois de um longo suspiro doído. Olhos negros de universo e de convite, caminho instintiva e lentamente; sento ao seu lado. Observo a vista: horizonte distante. Nuvens e céus infinitos, um branco sem limites. O velhinho pescador olha pra cima; também o faço. Um negro infinito, profundo e distante se apresenta: universo distante. Fito o velhinho que me fita de volta, com seus olhos escuros magnéticos, profundos como as abissais. Suspiro. Alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê… não sei mais.

Fecho os olhos, vejo a sala de casa. Mais uma pétala da flor de pedra, da graça que pedi, cai. O que é superstição e o que é fé? É, pode ser que a maré não vire. Pode ser da vida acostumar. E o acaso a se esconder. E agora o amanhã, cadê?

Fito o velhinho e sua mão pesada e forte se move, formando um vento terrível e avassalador em minha direção. Um medo enorme se apodera de mim, nem penso. Só enxergo um mar, de verdade, com dois barcos em tormenta, e uma chuva de lágrimas, muitas cenas passando ao mesmo tempo. E a mão de velhinho pescador pousa, delicadamente, como uma brisa de praia, no meu ombro. Me fita com seus olhos abissais, nenhuma expressão que o denuncie. Sua expressão sutilmente me reflete, como um espelho que só mostra sombras. Segundos eternos se passam até que ambos olhem para o universo escuro de novo.

Suspiro. Fito mais uma vez o velhinho que me reflete, devolvo seu gesto, quase abraço, e olho novamente para o universo profundo… Sozinho, ou como for, eu vou até à beira. E de repente, na minha frente fez-se mar. Pensamentos de praia, conversa desfeita, quase lá. Foi quase lá. Espero, em vão, que o Acaso entregue alguém pra me dizer o que qualquer dirá. Mas, não. Meço no vento, os próximos passos, e o passo de agora. E entendo: é de mágica que se dobra a vida em flor.

Levanto e vou lá, que andar é reconhecer.

papo com deus 2

 

Primeiro andar
Los Hermanos
composição: Rodrigo Amarante

Já vou, será
eu quero ver
o mundo eu sei
não é esse lá

por onde andar
eu começo por onde a estrada vai
e nao culpo a cidade, o pai

vou lá, andar
e o que eu vou ver
eu sei lá

não faz disso esse drama essa dor
é que a sorte é preciso tirar pra ter
perigo é eu me esconder em você
e quando eu vou voltar, quem vai saber

se alguem numa curva me convidar
eu vou lá
que andar é reconhecer
olhar

eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou

Eu escrevo e te conto o que eu vi
e me mostro de lá pra você
guarde um sonho bom pra mim

eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou

Anúncios

Na luz e vendo

Publicado: outubro 15, 2009 em cotidiano

“E minha vida é esta: subir Bahia e descer Floresta” – Rômulo Paes

Este pequeno adágio do poeta mineiro Rômulo Paes fala do hábito em Belo Horizonte de transitar entre a rua Bahia e o bairro Floresta, pontos altos de discussões e movimentações políticas e ponto de barzinhos e restaurantes super legais.

Mas a sensação que tive ao descer a rua Bahia e ler este versinho em um monumento de bronze, que mais parecia um bandeirante desbravador, foi a de uma imagem bem mais distante. Pensei em subir a Bahia e chegar ao nordeste, norte do Brasil, e subir mais, e subir Américas sem fim. E, ao descer florestas, visualizei descer ao sul, sul de Minas, sul do Brasil, sul dos lugares ao sul de mim, abaixo de onde estiver.

Uma verdadeira volta ao mundo passou diante dos meus olhos depois de ver aquele monumento na linda Belo Horizonte. E depois de ver Belo Horizonte e ver que de Belo Horizonte vê-se tudo, de cima de seus topos e morros e colinas e serras, pude ver o mundo através da frase do poeta mineiro.

Ver. Olhar, que é meu sentido preferido, e se dá de tão diferentes vieses e formas, viu na frase do monumento de BH mil possibilidades de ver o mundo, subindo todas as bahias e descendo todas as florestas, e vendo tudo de cima, vendo um belíssimo horizonte.

P8110276