Arquivo de novembro, 2009

A greve

É nosso desastroso hábito observar que as coisas não vão bem e reclamar. Reclamar, discutir em mesas de bar, fazer cara feia pras notícias da TV, e só. E quando as coisas continuam a não ir bem, ou não acham solução, concluímos com um sonoro “viram? Não adianta fazer nada”. Cansada desse processo e curiosa sobre o que faziam aqueles que “não fazem nada”, resolvi participar do processo in loco e lá fui participar das negociações pra reestruturação da carreira de assistência social do Distrito Federal. O processo arrastou-se lenta e invisivelmente às autoridades até culminar numa greve. Greve esta prejudicial apenas àquelas partes mais esquecidas da população. Uma parte que não foi afetada quando paramos o trânsito no Eixo Monumental, na frente do Buritinga, porque a maioria deles só anda de ônibus. A parcela da população que nos via simplesmente não precisa da Assistência Social. Antes, nem sequer sabe o que ela significa. Ficaram então, sem assistência as famílias que recebem pão e leite todos os dias, os adolescentes adictos de crack e suas famílias desesperadas, as crianças e idosos que vivem em abrigos, os adolescentes trancafiados em unidades de internação, as mulheres assistidas por programas de proteção à violência. Enfim, todos aqueles que você não quer saber se existem ou não, porque eles fazem a vida parecer pior do que ela já é.

Cadê o dinheiro do GDF?

Nesse lento processo de mais de uma semana de desassistidos, as negociações se desenrolaram lentas, com a imprensa bradando que nosso aumento pretendido era ilusório. Como pedir 103% de aumento? Ridículo exigir isso de um governo que não deu mais de 30% a nenhuma outra categoria. Alexandre Garcia riu de nós. Mas, esqueceu-se ele de observar que essa porcentagem era devida uma disparidade na qual servidores de nível superior possuíam um vencimento básico de 800 reais, e servidores de nível básico recebiam complementação de salário mínimo, visto que seus vencimentos não chegavam a isso. A “simpática” líder do governo na Câmara legislativa nos recebeu mal a mal, afirmando que não sabíamos negociar. O presidente da Câmara se impacientou com nossa presença, empurrou com a barriga nosso pedido de ajuda pra abrir as negociações, pois até então, num jogo de empurra-empurra, governador e secretário de planejamento afirmaram que não haveria mais nenhuma negociação com a categoria.

Depois de uma reunião estressante com negociadores da pasta de planejamento, que bradavam aos quatro ventos que o GDF não tinha dinheiro, que era impossível o audacioso aumento pretendido, que estávamos sendo gananciosos com o tamanho daquele pedido, ofereceram-nos um valor irrisório, dividido em 03 parcelas, com a única vantagem de equiparar nossos vencimentos aos do administrativo do GDF. Isso seria bom apenas para as próximas brigas com o governo por melhores gratificações.

No mesmo dia em que servidores exauridos por todo esse processo de negociação, desconfiados e insatisfeitos tentam debater sobre a aceitação ou não da “propostinha” do governo, a Polícia Federal inicia uma intervenção contra o governo do distrito federal por corrupção passiva. Menos de 36 horas depois, diversos releases de vídeos mostram deputados, líderes do governo, o presidente da câmara distrital e o próprio Sr. Governador recebendo blocos e mais blocos de dinheiro, escondendo-os nas bolsas, “cestas” e até nas meias. Finalmente descobrimos onde está o dinheiro do GDF.

Pagamos o peru (ou seria o pato?) em pleno Natal

Toda a situação vexatória em que o governo se colocou nesse momento culminará, possivelmente, em mais constrangimento tão somente para o cidadão. Caso haja intervenção federal no DF, as obras que massacram a paciência dos moradores da capital irão parar. O projeto de lei dos servidores da assistência social dificilmente será votado. E tudo acabará novamente em um belo nada. Como disse um leitor do Correio Braziliense “cinco contra um como isso termina em nada”.

Minha lição de tudo é que o processo democrático no Brasil hoje é uma grande mentira. Não posso ser alienada a ponto de não reconhecer que já foi pior, e que muitos avanços ocorreram. No entanto, o verme da corrupção e o jogo político ao qual fui exposta recentemente na capital deste país, me causam náuseas. E, ainda assim, me sinto impelida a participar da caminhada do impeachment do meu querido patrão. (Eu disse impelida, não que iria, isso não vale como prova de processo disciplinar, hein? Rs).

A política não é nem de longe a sujeira que as pessoas pensam que é. O que passa na TV é apenas a parte mais higienizada.

ainda olhando…

Publicado: novembro 23, 2009 em Sem-categoria

Já estive aqui antes. E me lembro bem. Talvez por isso me mantenha aqui fora, olhando pela janela, hesitando entrar. Talvez justifique minha teorização do espaço que observo, análise crítica dos ambientes lá dentro. Mas, poxa, que vista linda!
Sigo encantada por uma vista que tenho medo de tocar, extasiada com uma sala na qual tenho medo de entrar.
Mas… que imagem linda!