Arquivo de maio, 2010

É da natureza humana reclamar. Reclamamos o tempo todo: do tempo, do salário, do cabelo, da vida. Existem expressões mil para ilustrar essa nossa condição reclamona: a grama do vizinho é sempre mais verde, ver o copo meio vazio, etc. Mário Quintana já escreveu uma ode aos chatos reclamões, e vários poetas e cronistas dedicam seus pensamentos mais bonitos rezingando a própria vida. As pessoas abastadas reclamam de dinheiro, por medo de serem roubadas, e as pobres reclamam com razão. As feias não perdoaram Vinícius e reclamam de sua aparência, as bonitas reclamam insatisfeitas com alguma coisa de Angelina Jolie que ainda não tem.

Difícil achar uma prosa agradecida. Agradecer parece não estar muito na moda. Além do que, falar bem da própria vida pode atrair inveja, olho gordo. Mas mesmo assim, o cosmos parece organizar um conluio pra ensinar coisas que nós, teimosos mortais, não aprendemos nunca. Eis que me aparece uma personagem da vida real chamada Maria da Cruz que, além de me limpar o apartamento, consegue me limpar a alma. Esta personagem não conhece o verbo reclamar, não consegue tratar a própria vida com melindres e desgostos, e nas horas vagas dá dicas de como levar a vida com bom humor.

E quando a gente pensa em agradecer porque leva uma vida legal e sem muitos percalços? Quando a gente para pra pensar que apesar de alguns tropeços, somos felizes? É bastante raro observar isso, diria quase inexistente ver esses momentos.

Culminando com a presença dessa personagem incrível que me limpa o AP e a alma, gostaria de agradecer algumas coisas que me fazem muito feliz, e que dificilmente em outras ocasiões examinei com tanto cuidado como agora:

  • Eu tenho uma família incrível, que pára a vida e desaba pra Brasília a qualquer momento que for solicitado. E uma outra parte que não vem, mas fica na torcida querendo notícias todos os dias e sentindo falta, me afogando de carinho sempre. Nessa família tem muitas crianças, uma bênção pra qualquer coração molestado. Criança em casa é igual a mertiolate nas feridas do coração.
  • Eu tenho amigos incríveis, que também se programam e se revezam nos meus cuidados. Tanto aqui como lá, tenho pessoas que me põem no colo ou me forçam a andar sozinha nos momentos ideais. Amigos que ligam “só pra checar”, numa terça à noite, e jogar conversa fora, são raros, principalmente nas terras áridas do DF. E, particularmente interessante, as pessoas mais velhas tem mais esse perfil aqui, i. e., idade é inversamente proporcional ao egocentrismo.
  • Tenho muito trabalho a fazer, ajudando muita gente que, de outra forma, não seria ajudada. Tenho pesquisas a fazer, que de outra forma, não estariam sendo realizadas. Tenho um apêzinho  lindo, arrumadinho, que quando a Maria arruma, fica uma delícia de estar.
  • Tenho bom humor pra lidar com os percalços da vida sorrindo e fazendo graça de mim mesma.
  • O metrô passa na minha porta.
  • Não engordo com facilidade.
  • Meu cabelo tem mechas lindas e está supersedoso ultimamente.
  • Minha internet de banda larga funciona superbem.

E meus olhos. Agradeço sempre por poder olhar… e ver. Mesmo no escuro. 🙂

P.S: adorei esse vídeo! 🙂

+ Ingrid…

Publicado: maio 24, 2010 em english stuff

giving up

Publicado: maio 19, 2010 em english stuff

A vida passa em cada andar

Publicado: maio 14, 2010 em cotidiano

Chave na mão, porta do hall de entrada

Passos apertados até o elevador

Setinha acionada, correspondência checada

E o elevador chega.

Primeiro, segundo, terceiro andar

Cheiro de pizza do térreo, barulho de carros parando

Cada um chegando da sua vida pro seu descanso.

E o elevador sobe

Cada andar um som distinto

Chaves tilintam, crianças gritam,

Barulho de chegar em casa.

Quarto, quinto, sexto,

Um bebê chora, tem cheiro de janta

Sétimo, oitavo, nono

A cada andar a vida anda.

Ninguém mora antes do décimo sexto,

Alguém disse uma vez.

Décimo sétimo, décimo oitavo

As pessoas se esperam, se aguardam

Suas casas cheiram a encontro.

Décimo nono

Aqui eu desço.

Ávida, a vida passa em cada andar.


Voltei de um tempo que não se encaixa com esse aqui que se apresenta. De roupas de século XVIII percorro as ruas cheias de caixas que correm sobre rodas. As casas se empilham e as pessoas moram umas sobre as outras. Onde estão as árvores e bosques, e que solo estranho e duro é esse por onde não se pode andar sem as caixas com rodas? Não há cavalos e outros animais, e as pessoas se vestem de forma estranha e esquisita. Quiseram me explicar que se fala com uma pessoa a várias milhas de distância por um dispositivo estranho e pequeno que se coloca junto ao ouvido e à boca. Consegue-se, de fato, ouvir uma voz metálica e estranha do aparelho, mas não sei se realmente falava com alguém que pudesse estar tão longe.

Mas, na verdade, o que há de mais estranho mesmo nesses tempos de hoje são as pessoas. Estas dificilmente se colocam de forma pessoal: onde está o pronome Eu? E os sentimentos? Ah, esses parecem desconhecidos nessas paragens, por mais absurdo que isso pareça. Todos eles parecem apenas se apresentar enquanto funciona para uma das partes, para si mesmo. Assim que a outra pessoa se torna dispensável, esta pode ser descartada. Mas isso não é o que se faz com o aparelho de falar à distância? É sim, mas também serve para as pessoas, me explicam. Mas, e o que acontece com as pessoas? Ah, mas todos já conhecem essa dinâmica, está tudo certo. As pessoas, como as coisas, devem servir a algo. Não há razão para ficar com uma pessoa que não te serve mais. Nunca me passou pela cabeça isso. Descartam-se, assim, as coisas, como as pessoas, por de certo não te servirem mais.

A relação se resume a um aparelho de falar a distância. Tempos estranhos esses.

Me apresentaram a um rapaz, muito triste por sinal, que tinha uma trova assim:

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui”.