Arquivo de agosto, 2010

Passarinhos na janela, a velha senhora descansa os braços no parapeito. Seu jeito de descansar é pensar na vida, juntar ideias e dar despedida àqueles pensamentos que não servem mais. Pensa e saboreia bolachas de água e sal, cujas migalhas se acumulam debaixo de seu queixo. Uma deixa qualquer e lá se vai ela pra janela, entender o mundo. Dias tranquilos e a janela permanece em silêncio. Os pensamentos nas panelas estão dissolvidos na água do arroz e mal se vê os pombos passeando por ali. Dias difíceis e lá se juntam eles, esperando na janela as migalhas remoídas da velha que mastiga pensamentos.

E outro dia se viram pombos, bem-te-vis e toda sorte de passarinhos acumulados na janela, além de borboletas, mosquitos e insetos. E a velhinha que mastigava pensamentos dizia em seu tom baixinho: “psst, xô, passa, passa!”. Tanta migalha, devia estar mastigando alguma tristeza.

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Todo dia à noite

Publicado: agosto 24, 2010 em cotidiano

Todo dia à noite, entro, desligo a luz e olho pela janela o parque todo no escuro, o campo de futebol e seus notívagos freqüentadores, o céu estrelado do deserto brasileiro. Ao longe, a cidade se acumula em prédios e mais prédios, mais ao longe, mais luzes e mais casas. Eu gosto é dessa amplitude. E que ninguém fira essa imensidão, porque dela saem meus caminhos, e de quem for corro para garantir essa visão do sem-fim. O sem-fim está cá dentro, se expande a cada instante, volta e meia entra e sai pelos olhos, aumentando ou diminuindo os tamanhos das coisas e das pessoas. É como olhar pela minha janela: vejo, à noite, a imensidão de pequenas luzes que piscam, vidas distantes, milhares de prédios, carros em movimentos nas vias lá longe, pontos iluminados em movimento, e no céu, mais luzes piscando ad infinitum. E é nessa amplitude que me manifesto, a amplitude de poder querer, de pedir, de esperar, de ter esperança, de desistir, como assim me aprouver. De enxergar do lado de dentro um espaço enorme, parte preenchido, parte a preencher. Não resta verdade em deixar que algo controle essa amplidão, que me segure pelos braços, para o mal ou para o bem, nem que seja o meu bem. E sigo encontrando caminhões de mudança em meu caminho, pela surpresa do cotidiano; e sigo enxergando as horas em ponto, esperando habitar o pensamento de alguém.

Punir a punição

Publicado: agosto 3, 2010 em Escrevendo para o CESPE

O advento da Psicologia Moderna introduziu no imaginário popular várias ideias discutidas nessa ciência, principalmente no que tange ao castigo e punição física contra crianças e adolescentes. A prática comum sempre foi a de que a um pai deve ser garantido seu direito de educar seu filho como bem entender, incluindo os castigos, físicos ou não, que julgar melhor. A proposta da nova lei brasileira contra o castigo físico trouxe uma onda inconclusiva de discussões sobre o assunto. Até onde é permitido castigar seu filho? Qual o limite entre a palmada e a violência? E a principal questão levantada: tem o Estado o direito de se envolver na privacidade da vida familiar?

A educação de crianças e adolescentes vem passando por uma transformação cultural desde o final da Idade Média até os dias atuais. Se no início do século XX toda criança deveria respeitar os pais com base no medo e na coerção, os pais do final desse mesmo século tinham medo de punir e traumatizar a criança. Pais e mães caíram num limbo no qual não se pode punir os filhos sob risco de seqüelas psicológicas que atrapalham o desenvolvimento, e a necessidade de dar limites aos mesmos.

O caso é que o texto da Lei tenta impedir que haja punição física, violência familiar e espancamento de crianças, tragédia comum nas famílias brasileiras. É de ampla publicação atualmente artigos científicos com resultados de pesquisas desde a década de 60 que demonstram os resultados da coerção como forma de controle. E os resultados não são bons. Esse controle imediato é bem-sucedido, mas seus efeitos em longo prazo são deteriorantes, além de ineficientes. A pessoa punida sempre volta a apresentar o comportamento punido, apenas não na frente do agente punidor, ou na sua presença, mas com mais violência. Portanto, há elogios à iniciativa, mas há problemas no entendimento e na execução da Lei. Uma palmada ou uma chacoalhada mais truculenta no shopping de uma criança que se debate no chão não é, em magnitude nem em frequência, similar a casos de espancamento e violência familiar, apesar de ser igualmente ineficaz. Mas será caso de polícia? Uma campanha educativa poderia ter um efeito semelhante para casos de coerção, em que se projetasse a publicidade acerca da ineficiência do controle produzido por tais atos.

Por fim, mesmo que aprovada, será extremamente difícil que o Estado exerça um controle eficaz sobre o comportamento desses pais. A denúncia de terceiros será, provavelmente a forma mais ampla de controle do cumprimento da Lei, coisa que já existe hoje em dia, através da atuação dos conselhos tutelares. E resta ainda uma última reflexão: o Estado estará punindo os pais por punirem os seus filhos, o que gera uma circularidade no efeito da Lei. As crianças punidas continuarão a ser punidas, porém bem longe das vistas da sociedade, isto é, dentro de casa.