Arquivo de outubro, 2010

Seven years

Publicado: outubro 31, 2010 em cotidiano, pq sem dizer nada...se diz mais.

 

Spinning, laughing, dancing to
her favorite song
A little girl with nothing wrong
Is all alone

Eyes wide open
Always hoping for the sun
And she’ll sing her song to anyone
that comes along

Fragile as a leaf in autumn
Just fallin’ to the ground

Without a sound

Crooked little smile on her face
Tells a tale of grace
That’s all her own

Spinning, laughing, dancing to her favorite song
A little girl with nothing wrong
And she’s all alone

Anúncios

A história está no vídeo: um pianista que, ao se deparar com uma foto de pássaros pousados em fios da rede elétrica, enxergou uma pauta musical e compôs uma música. Mais divino, impossível.

A apresentação dessa versão se deu em 2009 no TEDx São Paulo, um evento que trata de grandes ideias para mudar o mundo agora e não no futuro. Esse ano acontecerá o Tedx Amazônia, dias 06 e 07 de novembro. Daqui uns dias falarei sobre ele – eu espero.

A fórmula hollywoodiana é essa: encantar os olhos ansiosos dos espectadores e criar uma supra-identificação com herois e heroínas, mocinhos e mocinhas das películas. Mais recentemente com os bad guys ou anti-herois. Não entendo nada de cinema, que o Junior me corrija se começar a falar baboseiras, rs. Assisti esses dias Comer, Rezar, Amar, mais porque a sessão de Tropa de Elite 2 estava lotada. Criei uma expectativa desagradável do filme devido à fama de auto-ajuda do livro de Elizabeth Gilbert, mas de certa forma, me surpreendi.

A mocinha Elizabeth (Julia Roberts) está numa crise existencial fortíssima, acaba um casamento aparentemente bem-sucedido, mas infeliz e sai pelo mundo por um ano, sem lenço sem documento, mas com alguns dólares na conta bancária, para descobrir quem ela é de verdade. Minha mãe, comentando sobre o filme: “deve ser triste”, mas é um filme alegre, com algumas boas tiradas de humor e um happy end.

Happy end com Javier Bardem... hummm...

 

No filme, Liz decide encontrar a si mesma, e segue um roteiro descrito pelo próprio título do livro: vai à Itália para comer e apreciar os prazeres de um bom garfo e um bom vinho, sem preocupações estéticas, sem culpa e sem vontade de ir à balança depois de vários e vários pratos de pasta. A lição da Itália é aproveitar o que se pode fazer de bom na companhia de pessoas interessantes, amigas e simpáticas: comer e beber bem. Em seguida, Liz vai à Índia, rezar. Aprender a estar consigo mesma e com Deus. Tenta a meditação, frustra-se em conseguir o no mind e, mais uma vez, tem o apoio de uma pessoa aparentemente grosseira e simples, mas que acaba demonstrando grande sabedoria adquirida após muito sofrimento, ao bom e velho estilo americano. Sua lição aí é aprender a perdoar suas faltas, assim como perdoar a quem a tiver ofendido. Uma das cenas mais tocantes, para a minha pessoa, foi aquela em que Liz dança com seu ex-marido e, enquanto ele insiste no apego ao sentimento que tem por ela, Liz não o condena, nem diz o que ele deve fazer, apenas pede que ele deixe-a ir e, quando pensar nela, envie muita luz e amor. Por último, Liz vai a Bali procurar um guru que motivou toda essa busca inicialmente, e lá acaba encontrando um brasileiro (ah, os brasileiros/latinos…) que também está fugindo das complicações do mundo real, curando-se de algumas feridas sentimentais. Como é de se esperar, eles se encantam um pelo outro, mas ela foge por medo de sofrer de novo e perder o equilíbrio que havia conseguido sozinha ao longo do filme. No finalzinho mesmo, o guru diz que ela deve chutar o pau da barraca e ficar com o brasileiro, porque até o equilíbrio precisa de um pouco de desequilíbrio. Fim.

O filme é simples, é previsível, mesmo assim encanta em algumas particularidades. Até porque, quem nunca sonhou em viajar pelo mundo afora, aproveitando culturas diferentes, pessoas diferentes e interessantes, sem trabalho, reclamações e cobranças por um ano? Férias dos sonhos.

Só espero estar curada da minha intolerância à lactose até lá.

A particularidade está nos detalhes que talvez só o livro mostre. Folheei um exemplar na Saraiva do Park Shopping e passei por um trecho que dizia assim: “mais uma noite solitária em Roma”. Isso está marcado no filme também quando ela aprende a palavra sola e repete: lonely. Outra parte interessante é a pergunta frequente em todas as culturas: “mas você não é casada?”, e os comentários “você precisa de um homem!”. Já em Bali, Liz comenta: “não agüento mais todos me dizendo que preciso de um homem”. É muito interessante observar, com o bom humor que a questão merece, a constante cultural da mulher incompleta, que precisa de um homem. Todo o cinema riu junto quando uma balinesa local pergunta à Liz: você não tem um homem? Então você é lésbica?”, rsrs.

Nós sempre nos identificamos com os mocinhos e mocinhas dos filmes, com a sua luta, com as suas descobertas. Nesse filme, um pouco mais especialmente, porque crises existenciais, a necessidade de encontrar-se consigo mesmo e a tropa de viajantes solitários pelo mundo aumentaram consideravelmente nesses tempos de agora. E ao mesmo tempo em que se busca muito, muito ainda é esperado do acaso, dos acontecimentos fortuitos, das coincidências inesperadas. Eu me identifiquei com Liz. Estava indo ao cinema sozinha, como parte de um exercício de estar bem comigo mesma, todas as quartas possíveis. Planejando várias viagens, já realizei algumas, faltam muitas. Minha busca por uma força superior está se tornando cada vez mais frequente. Mas a modificação que já se deu aqui dentro, todas as coisas que hoje são diferentes e todos os sentimentos novos, são coisas que ainda não se pode ver a olho nu. Estão cá dentro comigo, movimentando-se, hiperbolicamente, até quem sabe um dia.

Uma menina e seu carro

Publicado: outubro 4, 2010 em cotidiano, inícios... u.u

“Porque não adianta nada ter um Código de Trânsito melhor que o sueco, ter tecnologia americana e bulevares franceses se não temos suecos, americanos e franceses para honrá-los e segui-los. O motorista é brasileiro e não obedece às leis.”

Roberto da Matta, na revista Trip de 08.09.2010


Roberto da Matta é um antropólogo, de vasta experiência sobre o Brasil e seus brasileiros, que decidiu sair das selvas amazônicas e se emaranhar nas selvas urbanas para entender e explicar as práticas sociais brasileiras. Depois de pesquisar o universo do carnaval, do futebol e do jogo do bicho, Da Matta afirma que podemos  explicar a economia e cultura dos países através do trânsito e do comportamento de seus motoristas. Na versão online da revista Trip, comenta sobre seu novo livro, Fé em Deus e Pé na Tábua, e sobre como nós brasileiros vivemos “a ilusão de que ter um carro é sinônimo de sucesso”.

Estando no papel de uma potencial e ansiosa compradora de um novo veículo, o tema me chamou bastante atenção. Da Matta afirma que ainda nos sentimos nos tempos aristocráticos, onde escravos nos carregavam nas cadeirinhas, e que o comportamento dos brasileiros no trânsito ainda está muito ligado à nossa falta de noção de igualdade jurídica. O bêbado é sempre o outro, o barbeiro também. É um absurdo dirigir e beber, mas eu sei o meu limite e consigo dirigir até em casa depois de algumas cervejas. O cinto de segurança é só para o outro, a proibição do uso do celular é só pra quem não tem habilidade suficiente para manejar o carro, e por aí vai. Essa visão de desigualdade não é nada rara de se encontrar em seu círculo social, você possivelmente já se lembrou de alguém assim.  A visão mais sutil, mas que ainda é fácil de observar ao seu redor, é o status social de possuir um carro. Uma vez uma colega fez as contas na ponta do lápis de quanto gastaria para obter um carro versus gastos com taxi, metrô e ônibus durante um ano. Surpreendentemente, pelo menos para mim, um carro não é assim tão vantajoso no aspecto financeiro, mas quando há bom atendimento no transporte público. Esse último ponto não é novidade, bem como não é novidade a precariedade do nosso transporte público brasileiro.

Há outro ponto mais acima de nossas cabeças, mais precisamente na América do Norte, que talvez tenha uma influência que não mereça ser descartada.  Quando penso em possuir um carro, apesar de realmente identificá-lo como um símbolo de ascensão social, a ideia mais pungente é a de liberdade de movimentos. A possibilidade de ir e vir, a longas e curtas distâncias, sem precisar esperar, sem ter hora de ir ou voltar, sem a intermediação de nenhuma outra pessoa, me atinge como uma lufada de brisa fresca de mar. Essa visão da liberdade de ir e vir em um automóvel faz parte da construção do ideário americano de liberdade, com suas free-ways e highways, e, claro, sua necessidade de vender carros. A necessidade americana de poder ir e vir sem restrições, sozinho, pensando na vida e cantarolando sua música preferida, nos atingiu através de Hollywood e da publicidade. As longas distâncias nas quais nos impusemos viver também contribuem fortemente para a crescente necessidade de deslocamento. Visto que moro em Brasília, para quem conhece as distâncias e segregações geográficas do Distrito Federal ou sua fama, pode mensurar o tamanho da necessidade.

Não discordo de Da Matta, nosso comportamento no trânsito precisa ser modificado a partir de mudanças sérias em nossas práticas sociais e necessidades. Mas quem nunca sonhou em dirigir seu possante, em velocidade razoável, numa estrada livre de obstáculos, cantando em alto e bom som seu melhor La-ra-ra-ra…? 😉

Em uma época de mudanças interiores, seladas pelo véu da intimidade, quando meu coração muda bem mais do que meu semblante pode demonstrar, fácil é acatar a esse rito quando o ambiente assim o favorece. Difícil mesmo é tentar compreender e aceitar essas mudanças quando o ambiente te dá agulhadas no fígado e o semblante é o mesmo.

Poderia simplesmente dizer que é fácil ser cético quando sua vida está em dias e não há duras preocupações. Difícil mesmo é negar a Deus quando a perda é iminente. Nem que seja para raivosamente acusá-lo da culpa.

Mas não seria tão ilustrativo.

No mais, apesar de algumas agulhadas, o aprendizado está sendo rico, tranquilo e, acredito eu, já está rendendo alguns frutos.

Sem mais por agora, estou de férias, rs.