Arquivo de janeiro, 2011

… e que quer ter o direito de expressar-se contra a conduta gay de terceiros:

 

“Agora falo como psicóloga:

Uma pessoa que apresente um traço, conduta, característica ou comportamento que traga insatisfação pessoal, problemas ou dificuldades de interação social, ou que seja contrário a alguma crença dentro da qual foi criado, não significa que deva-se eliminar tal comportamento. É necessária uma análise funcional rigorosa que possa identificar quais as contingências mantenedoras dessa insatisfação. “Quero deixar de sentir tesão por outro homem ou por outra mulher” não é uma demanda fechada. Principalmente, porque não são essas as queixas. As queixas são sentir nojo durante o ato sexual, sentir-se deprimido após o ato, ou sentir-se sujo, apresentar um quadro de ansiedade geral na presença de pessoas do mesmo sexo, e principalmente, esconder-se para realizar o ato sexual. Não sei se vc conhece, mas existem as mesmas queixas em pacientes heterossexuais. Qual deveria ser a conduta do terapeuta? Eliminar o desejo dela por pessoas do sexo oposto?
A orientação geral do CFP e do código de ética é de utilizar-se de intervenções que eliminem qualquer desses sintomas para que, assim, a pessoa venha a compreender sua orientação. Se não houvesse esses fatores sociais que trazem os sintomas acima citados a pessoas de orientação homoafetiva, talvez pudéssemos considerar a procura espontânea como argumento que justifique a eiminação (ou sua tentativa) do desejo por pessoas do mesmo sexo.
Você afirma que as pessoas DEIXAM de ser gays. O que acontece é que você não vê aquela pessoa praticar ou falar sobre sexo  com pessoas do mesmo sexo. Você não mensura se ainda há ou não o desejo. Será se esta pessoa está curada ou simplesmente está CALADA?
Dessa forma, a questão está superada pela OMS, pelas orientações à saúde nacionais, regionais e por pesquisadores e cientistas sérios e, mais importante para esta discussão, pelo código de ética dos profissionais de psicologia. Se essa psicóloga atende gays para tratamento, ela está cometendo uma conduta criminosa, contrária ao código de ética que a rege enquanto PROFISSIONAL. Se ela quiser pensar assim como leiga, na sua igreja, na sua casa, isso não importa. Mas não pode e não deve atuuar PROFISSIONALMENTE segundo uma crença pessoal.
Outra coisa que devemos nos perguntar, nós psicólogos também, é: a pessoa “curada” está satisfeita, atendida? Ou apenas aliviada? E eu te explico a diferença: alguém que sofre de uma fobia social forte e tem crises agudas de ansiedade quando na presença de outras pessoas passa a não sentir esses sintomas, mas se ficar o tempo todo em casa. Ela está curada? Ou apenas aliviada? O contato social é algo do qual não se pode abrir mão, então, mudar a conduta é conseguir realizar o contato social sem apresentar esses sintomas de ansiedade. Recusar o contato para não sentir todos os respondentes, não ter a crise, não é cura, é evitação. Então, essas pessoas não tem mais desejos por pessoas do mesmo sexo? Ou apenas evitam esse contato para atender às expectativas sociais e religiosas de seu grupo cultural e social?
Mais uma vez eu tento deixar claro meu ponto de vista, que é de aceitação, que é de amor, talvez muito mais cristão do que a perseguição que algumas instituições promovem: é justo que você queira que uma pessoa viva de acordo com um dogma que é bom aos olhos de um determinado grupo, mas que destrua ela emocionalmente?
Se fosse um filho seu, o que você faria? “Trataria-o” e o veria suicidar-se aos 40 anos, vítima de um sentimento sufocado por anos? Negaria que ele, mesmo casado e com filhos, some de vez em quando, na saída do trabalho, pra ter relações que considera suja, mas não consegue evitar, com garotos de programa ou sem nenhuma afetividade envolvida? Ou permitiria que ele lidasse com esse sentimento, dando-o liberdade de ter uma relação amorosa saudável, estável e feliz, mas com uma pessoa do mesmo sexo?
O problema, meu amigo, não está em quem sente, está nos olhos de quem vê. Saia um pouco do seu dogma. Coloque-se no lugar do outro. Tenha empatia. Ame seu irmão e aceite-o como ele é. Jesus disse isso. Jesus nunca disse: persiga, mate, aponte o dedo, julgue.
Só pra terminar, gostaria que você parasse de falar que “nós, cristãos” pensam assim. Sou cristã, espírita, com dogmas e fé, mas consigo observar nas palavras de Jesus que deve haver caridade. Por mais que você não concorde com a orientação homoafeitva, não é você que deve apontar o dedo na cara de uma pessoa que já sofre o suficiente os preconceitos dessa nossa sociedade que não olha os próprios defeitos. Deixe que as pessoas vivam algo que não lhes faz mal, nem faz mal a você. Se assim, livres dessa exclusão social, essas pessoas ainda quiserem eliminar essa orientação, aí sim poderemos discutir.”

Por favor, se você discorda de uma conduta, que vai contra os seus princípios ou contra a religião que você cresceu e que seu grupo cultural acredita, antes de apontar seu dedo na cara de alguém, pense em duas questões básicas:

1. Essa conduta me prejudica? Me atinge diretamente? Atinge à minha saúde? Me faz mal porque me atrapalha na minha vida social?

2. Essa conduta prejudica a pessoa a quem a pratica? Tolhe seus direitos, machuca-a de alguma forma? Torna-a menos saudável?

Se a respostas a essas perguntas forem NÃO, então não seja totalitário e não permita que uma crença sua torne a vida das pessoas mais difícil. Olhe pro seu umbigo e mude em você o que ainda está errado. Tenho certeza de que será trabalho suficiente para toda uma existência.

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Sinceramente, não sei sobre o que falar nesse post. Não por falta de conteúdo, mas por excesso. Primeiro, leio uma pobre menina escrever num portal e ser esculachada nos comentários apenas porque fez algumas afirmações generalistas. A garota quis passar seu ponto de vista usando uma generalização: todo gringo é ruim de pegada. Tá, ela pegou gringos errados. Tá, nem todos os brasileiros são essa coca-cola toda que ela quis passar. Mas qual é a razão pela qual as pessoas se acham no direito de xingar a menina de idiota, de aconselhar que ela tenha mais “sapiência” ao escrever, de dizer que o post é muito ruim e praticamente mandá-la desistir de escrever? As pessoas acabaram sendo desrespeitosas, mostrando-se revoltadas com um simples ponto de vista sobre a afirmação “todo gringo é ruim de pegada”. Imagina falar da mãe.

Como as pessoas são na internet: "poupem-me de tão tolas discordâncias..."

Como elas são na verdade: "Muleque burro, sabe de nada..."

Entro em outro portal e leio um artigo até interessante que trata da frase “bandido bom é bandido morto”. Existe uma polêmica embutida e esperada nesse tipo de tema, há exasperações e defesas apaixonadas da pena de morte ou dos direitos humanos, isso dá pra levar. Mas, ofensas pessoais ao autor, falar que começou mal, que o texto é péssimo porque não reflete a opinião de quem comenta, atentar contra as experiências pessoais do autor, eu não consigo entender. É um pouco demais.

Faltou, na minha singela apreciação, que em ambos os posts as pessoas reconheçam o espaço aberto a discussão, antes de atacarem pessoalmente a pessoa que opina, que está ali a escrever. Vamos falar dos gringos ruins de pegada, ou que a moça pegou os gringos errados. Vamos falar que o ponto não é o bandido ser preto, branco, amarelo, colarinho branco ou ladrão de galinha, mas da propensão da sociedade em eliminar o que não lhe convém, varrendo pra debaixo do tapete seus próprios produtos.  Vamos falar da teoria da descarga social. Mas atacar aos outros pessoalmente, na sua dignidade, não traz qualquer contribuição, apenas incita a violência e rompe o diálogo saudável.

Não sei se é a proteção do anonimato, ou se as pessoas mal-educadas usam mais a internet, mas fato é que tenho visto isso se repetir bastante. E isso é algo que eu não entendo.

Meio tarde para uma retrospectiva, afinal a primeira semana de janeiro já se foi, mas algumas revisões são necessárias para compilar as aprendizagens por trás dos fatos. O post do Papo de Homem sobre “coisas que você fez e gostaria de repetir em 2010” me inspirou, mas devo dizer que muitas coisas aqui listadas eu não gostaria de repetir.

1.       Parafraseando outra pessoa, digo que, em 2010, eu terminei um relacionamento com uma pessoa de quem gostava muitíssimo, mas por motivos racionais. E com a passagem do tempo tive cada vez mais certeza de que foi a coisa certa a fazer. Vejo as pessoas cada vez mais presas em relacionamentos sem nenhuma perspectiva, sofrendo por isso, mas sem coragem de acabar com tudo. Tive o guts de fazer isso e não voltar atrás, o que poderia prolongar um sofrimento desnecessário. Deu pra aprender também, nessa história, que por mais que seus amigos tentem te ajudar, “abrir os olhos”, essa é uma decisão muito solitária.

2.       Em 2010, também ganhei uma família postiça, com direito a almoços familiares, sobrinhos, tios, aniversários e todos os eventos e situações anexas. Foi uma descoberta muito boa, principalmente porque me fez repensar e amar ainda mais a minha própria família de origem.

3.       Entrei no mestrado que deveria ser dos meus sonhos e acabei descobrindo que não é nada disso que eu quero. Em 2011 vou terminar essa praga, mas só porque não tenho o hábito de começar as coisas e não terminar. Descobri também que, em muitas profissões, você não precisa de um diploma acadêmico para mostrar que é um bom profissional, no entanto, em muitas áreas isso não é verdade, infelizmente.

4.       Reavaliei e reforcei a maioria das minhas amizades em Brasília. Aprendi o quanto é importante ter não uma, mas várias referências para todas as categorias de necessidades que você tenha. Aquele amigo do chopp, aquele de filosofar, aquele pra rir e falar bobagem, aquele pra falar de coisas nerds, enfim… Dá pra coligar todas essas categorias no mesmo amigo, ou em poucos, mas às vezes também não dá. E é bom respeitar o limite de cada um.

5. Low expectations suck! Tirando a parte de que é realmente necessário entender os limites das pessoas e não cobrar além do que elas são capazes de te oferecer, manter expectativas baixas quanto aos acontecimentos da vida é uma bosta! Aprendi em 2010 isso: que temos que esperar coisas boas, esperar ter alegrias, esperar o melhor das pessoas, esperar, do verbo ter esperança. Pessoas como a Paty me ensinaram que amar as coisas que acontecem na sua vida, amar as pessoas, os momentos, curtir aquela música melosa como se estivesse completamente apaixonada, mesmo não tendo ninguém, é algo muito enriquecedor.

6. Também em 2010, me encontrei mais espiritualmente.  Consegui achar em mim uma porção de Deus que estava perdida, muito ligada a ideia de ter esperança, que de certa forma é muito parecido com ter fé. Para isso, deixei de consumir bebidas alcoólicas por um tempo, principalmente cerveja (que eu adooro), e passei por uma fase de recolhimento, pra reconhecer partes de mim que estavam diluídas no mundo do lado de fora. Está sendo, porque ainda não acabou, uma experiência muito edificante, mas a minha fase de recolhimento está passando e decididamente eu já voltei a tomar a velha e boa cervejinha de happy hour. Sem exageros.

7. Voltei em casa algumas vezes esse ano de 2010 e descobri que não pertenço mais ao meu antigo lugar lá. As coisas mudaram, penso e sinto cada vez mais diferente de lá, a família e os amigos pensam e falam, vivem uma vida que é bem diferente da minha, em termos de objetivos, planos, sonhos, desejos. Mas também ainda não me sinto totalmente apegada à nova vida que tenho hoje. Desejo ainda muitas coisas que, sinceramente, acho que não chegarão. É como essa ideia louca que tenho de quão boa seria a minha vida se eu tivesse a vida que tenho aqui com as pessoas que tenho lá. Como isso não vai acontecer, tenho que aprender a sonhar coisas novas.

Dá pra perceber que 2010 não foi lá um ano de grandes acontecimentos, mas de grandes reflexões. Foi um ano pra dentro. Como 2009 tinha sido um ano pra fora. Acho que 2011 ainda tem muito a me surpreender, eu que já vivi 2010 com medo de surpresas, saio da toca e espero um ano equilibrado, pra  dentro e pra fora.

 

Iniciando o ano de 2011 com algumas constatações. Primeiro, de que as coisas sempre mudam. Segundo, que o tempo é o senhor das mudanças, por mais que as ações da natureza e do homem se manifestem. Terceiro, que o tempo também é o senhor da constância. Rege seu cajado sobre certas coisas que não mudarão ainda.

Chico Buarque comenta, nesse vídeo abaixo, a Teoria do Homem Cordial, formulada pelo sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, seu pai. O homem que segue seus sentimentos, que é avesso às formalidades e, principalmente, tem uma necessidade de contato social tão urgente quanto uma necessidade básica.

Eu entro o ano falando do tema mais recorrente de 2010, não só aqui, mas em muitos blogs, mídias, conversas de botequim, reuniões de amigos, monólogos no chuveiro…

“O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho…”