Arquivo de fevereiro, 2011

Isso tudo que você vê na foto de cima é lixo, certo? Errado. Todo esse entulho é recurso para a associação Sonho de Liberdade, sediada na Cidade Estrutural. Uma cooperativa que começou com alguns poucos trabalhadores e hoje, além de garantir o sustento de muitos moradores da comunidade, promove um trabalho social importante através de oficinas de marcenaria, artesanato e estofaria para moradores da Estrutural. A cooperativa conta ainda com uma fábrica de bolas, que iniciou todo o trabalho e garantiu que os associados se estabelecessem. Fernando é um dos diretores da cooperativa, que não tem uma estrutura hierárquica muito bem definida no papel, mas que é respeitada sem necessidade de formalizações. Fernando nos conta que todo o recurso da cooperativa provém do lixo. Tudo mesmo. Toda a madeira que vocês podem ver nas fotos é retirada do lixão da Estrutural, além de uma boa parte que vimos chegar vindo das lixeiras do SIA. O material do qual são feitas as bolas também sai do lixo, e até a própria estrutura da cooperativa: os madeirites que separam os galpões, o depósito e a administração foram construídos com materiais que as pessoas não querem mais, entulhos e mais entulhos.

O que é para nós inconveniente por não nos servir mais e esquecido assim que deixa nossas portas, serve a estas pessoas como fonte de renda. Assim como as pessoas que tratam esse material também são por nós consideradas inconvenientes e preferimos esquecê-las . Os principais idealizadores e organizadores da cooperativa são ex-presidiários, pessoas tratadas por muitos como os dejetos da sociedade. Os próprios cooperados que têm esse histórico pontuam enfaticamente sua passagem pela história do crime – não para sua humilhação, mas para sua vitória – como eles fazem questão de reforçar. Esses mesmos ex-presidiários hoje, retomada a sua dignidade, se esforçam para proporcionar a mesma chance a outras pessoas cujas vidas estão literalmente na lama. Dependentes químicos em reabilitação, ou que já estão limpos há alguns anos, também fazem parte da cooperativa de alguma forma. Um deles nos contou que, viciado em crack, chegava a dormir todas as noites em um chiqueiro quando foi resgatado pelos associados.

Talvez isso não tenha nada de novo, nem para você que conhece e lê sobre economia solidária, sobre os benefícios da reciclagem e como esse negócio é lucrativo atualmente. Também pode soar como notícia velha que um grupo de pessoas moradoras de uma região de risco se reúna para tentar proporcionar oportunidades para outras pessoas a quem o resto da sociedade vira as costas. Mas para mim, cada passo enlameado dentro da cooperativa, cada cachorro virulento que me passava aos pés, cada criança de pele amarelada que corria no refeitório e cada entulho de madeira que chegava do lixo, me traziam uma certeza de que somos capazes de coisas fenomenais. Sim, Obama, nós podemos, hoje eu entendo você. E aquela velha máxima piauiense que diz “pense numa coisa: pois existe” se confirma.

A cooperativa caminha com as próprias pernas, mas com um orçamento apertado e precisando de ajuda sempre. Mas longe da choradeira assistencialista, eles só querem trabalho. Não consegui tirar fotos de um tambor de mais de 10l lotado de pregos enferrujados retirados da madeira do lixo, para que a madeira possa ser reutilizada adequadamente. Também não tive a sagacidade de fotografar a máquina de cortar madeira construída com peças de uma antiga máquina e com objetos retirados do lixão, obra de um dependente químico em reabilitação. Ou dos trabalhos da estofaria. Ou das bolas costuradas pelos cooperados. Ou dos trabalhos de artesanato. Minha admiração foi tão imensa e tão grande o meu espanto, que só tirei fotos dos recursos: o lixo que transforma vidas.