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Chega das mãos de algum amigo, de confiança ou não, gratuito ou custando uma merrequinha. Se já vem sequinha, esfarela, põe na seda, enrola, fecha, acende. Puxa, prende, solta. Passa pro próximo. Pra conseguir é um susto. Vem da mão de um criminoso, armado, tem que passar pela polícia, corre o risco de ser preso. Não é para todo mundo que pode mostrar, sob o risco de ser julgado e condenado, como drogado, doente, dependente. Legal é na Holanda, que eu posso entrar em um café, na esquina de casa e fumar tranquilamente.

O documentário Quebrando o tabu, do diretor Fernando Andrade, e que tem como âncora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, reacendeu as discussões na mídia sobre a descriminalização do uso da maconha, a regulação do uso e

Mais nova piadinha infame: FHC = THC

, consequentemente, a legalização da maconha. Apesar de não deixar claro, o documentário aponta três situações distintas dessa realidade: trata da descriminalização, mostra a importância da regulação do uso e menciona a legalização. Vamos a eles.

Descriminalização

Descriminalizar o usuário já é uma realidade. Desde a Lei 11.343, de 2006, o porte de drogas não mais prevê pena de prisão para a posse e consumo, ou seja, houve uma descriminalização formal, pois não pode mais ser considerada crime, mas não houve uma perda do caráter de ilícito. Houve, ainda, uma despenalização, segundo o artigo 128, da mesma Lei, que suaviza a resposta penal, transformando-a em penas alternativas e tratamento, segundo o critério de cada juiz. Na realidade de adolescentes em conflito com a lei, o menino não é sentenciado com a internação, medida mais gravosa do sistema, mas é encaminhado para a liberdade assistida ou prestação de serviços à comunidade.

Em outros termos, não se prende ninguém por estar apenas portando maconha. No entanto, se você porta 1kg de maconha “para uso próprio” há de se estranhar. Não há fórmula certa, o policial deve se ater às evidências se há ou não tráfico, como a presença de uma grande quantidade de dinheiro em poder da pessoa, além de uma quantidade considerável da droga, presença de diferentes drogas, presença de balança de precisão, ou de trouxinhas de maconha em porções individuais, como as preparadas para vendas em menor quantidade. O juiz irá decidir, durante o processo, se as evidências caracterizam aquilo como tráfico ou não.

Esse não dá pra regular.

Regulação do uso

Não se pode, contudo, vitimizar o usuário. Nem todo usuário é um doente, dependente químico. Os defensores da regulação do uso pecam por tratar todos os usuários como doentes que precisam de tratamento. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Nem todos os que portam drogas são traficantes. Bem como nem todos são doentes.

Cabe ressaltar que, a dependência química é caracterizada pelos efeitos que o uso da droga causa no organismo do usuário, bem como em seu meio social, os repetidos abusos da substância, ou das substâncias usadas, o prejuízos funcionais do indivíduo em sociedade, dentre outros. Existem pessoas com as vidas destruídas pelo uso da droga, como há indivíduos que fazem uso eventual, não só da maconha, mas de outras substâncias, sem prejuízos em curto e médio prazo. A política de saúde para tratamento de dependentes químicos independe da regulação do uso. O SUS precisa estar preparado para receber aquele indivíduo com problemas, independente do julgamento moral ou penal sobre ele, o que não está acontecendo já há algum tempo. Para quem trabalha com essa demanda, ou para quem experimenta o problema na pele, enxerga dificuldades bem maiores do que descriminalização, e certamente, tão polêmicas quanto. Depois de um século de lutas da reforma psiquiátrica, hoje pode-se afirmar que um dos grandes problemas da família que tem um dependente químico, e de quem trabalha com ele, é a impossibilidade de interná-lo para tratamento sem o seu consentimento, principalmente quando o julgamento dele está comprometido justamente pelo uso da droga. Polêmico, não?

Muitos usuários eventuais não são dependentes químicos. Merecem ser presos? Não. Devem ser tratados? Também não. Então, legalizar a droga será uma boa? Pra alguns deles, sim. Pra outros, nada vai mudar.

Legalização

Eu, você, o seu amigo da faculdade, o executivo, o servidor público. Esse tipo de usuário será beneficiado pela legalização, ou até mesmo pela regulação do uso controlado. A maconha será mais livre de impurezas, será vendida em locais livres da insalubridade das bocas de fumo, passará por controle de qualidade e você não terá que enfrentar um cara armado para comprá-la. Muito bom para nós, que podemos pagar por isso. Com tantos benefícios, essa será uma maconha cara. Uma

"Hey, pelo menos não é crack!"

alta carga de impostos será atribuída a ela, com a justificativa de desestimular o uso. Então, o principal argumento dos defensores da legalização acaba manchado: como impedir o tráfico nas favelas? A venda ilegal? Bom, não pode. É de conhecimento de todos as apreensões de contrabando de cigarros de tabaco, legalizados, apreendidos nas fronteiras, sem nota fiscal. Qual o impedimento de que a mesma coisa aconteça com a maconha? A fiscalização. E o nome disso é repressão. Mas é o que já tentam fazer agora, não é? Sim. E está dando certo? Bom… não.

Mais uma vez, o prejudicado é o morador da favela, que continua convivendo com o tráfico, da maconha sem nota fiscal e das outras drogas não legalizadas, consumidas em todas as esferas sociais, afinal, não tem cocaína no café da esquina. E o pior: o pobre usuário eventual de maconha, compra a porcaria do beck de 5 reais, na mão do cara armado, ou no botequim da esquina, cheio de mato e impurezas. O cara de classe média, compra na esquina de casa, por 25 reais, com toda a segurança e controle de qualidade. Isso é Brasil.

E quanto à diminuição da criminalidade? Vai existir, com certeza. Menos pessoas subindo o morro pra comprar maconha e menos aviõezinhos na descida do morro pra distribuir pros playboys. Contudo, citando o filme Cidade de Deus, o tráfico dá seu jeito de sobreviver. Ainda existirão outras drogas vendidas na favela, alimentando o tráfico e acabando com a vida de dependentes químicos e seus familiares. E como resolver isso?

A grande preocupação está nos dependentes químicos, mas a regulação do uso só visualiza o que fazer com os usuários de maconha, a droga mais leve entre aquelas que são combatidas hoje com a repressão.A discussão sobre os leitos de tratamento em hospitais públicos, habilitação de clínicas de tratamento, formação de profissionais capacitados para tratar essa população, campanhas mais honestas e claras sobre as drogas, é mais uma vez deixada de lado. Como o próprio FHC fala no documentário, não se trata apenas de criminalizar e esconder na cadeia o problema, é preciso discutir. Mas a discussão, como sempre, passa primeiro pelo direito do usuário de classe média, e não pela necessidade daqueles que buscam tratamento através da rede pública de saúde.

O fato é: você quer usar a maconha de forma regular, porque é um direito seu, porque outras drogas mais danosas como álcool e tabaco estão ao alcance de qualquer pessoa, porque você quer ter o direito de comprar uma maconha não batizada, e você não quer ter que passar os sábados em serviços comunitários porque estava com alguns becks no carro. Ok. Você está certo e isso deve ser discutido.

O argumento falha quando se tenta colocar a regulação do uso como uma espécie de salvadora da violência, da guerra com o tráfico e do uso controlado. O tráfico não acaba, a violência não acaba, porque você pode comprar a sua maconha na farmácia. Ela não deixa de ser vendida na favela ilegalmente. Os hospitais não ganham mais leitos de tratamento por conta disso. A discussão acaba se misturando em termos de que políticas de saúde são necessárias para o tratamento de dependentes químicos, que, mais uma vez repito, não é a realidade de todos os usuários, principalmente de maconha, e o direito de usar a droga de forma controlada.

A questão tem que ser discutida de forma real e honesta? Então vamos lá. Assuma o risco de nada mudar.

Isso tudo que você vê na foto de cima é lixo, certo? Errado. Todo esse entulho é recurso para a associação Sonho de Liberdade, sediada na Cidade Estrutural. Uma cooperativa que começou com alguns poucos trabalhadores e hoje, além de garantir o sustento de muitos moradores da comunidade, promove um trabalho social importante através de oficinas de marcenaria, artesanato e estofaria para moradores da Estrutural. A cooperativa conta ainda com uma fábrica de bolas, que iniciou todo o trabalho e garantiu que os associados se estabelecessem. Fernando é um dos diretores da cooperativa, que não tem uma estrutura hierárquica muito bem definida no papel, mas que é respeitada sem necessidade de formalizações. Fernando nos conta que todo o recurso da cooperativa provém do lixo. Tudo mesmo. Toda a madeira que vocês podem ver nas fotos é retirada do lixão da Estrutural, além de uma boa parte que vimos chegar vindo das lixeiras do SIA. O material do qual são feitas as bolas também sai do lixo, e até a própria estrutura da cooperativa: os madeirites que separam os galpões, o depósito e a administração foram construídos com materiais que as pessoas não querem mais, entulhos e mais entulhos.

O que é para nós inconveniente por não nos servir mais e esquecido assim que deixa nossas portas, serve a estas pessoas como fonte de renda. Assim como as pessoas que tratam esse material também são por nós consideradas inconvenientes e preferimos esquecê-las . Os principais idealizadores e organizadores da cooperativa são ex-presidiários, pessoas tratadas por muitos como os dejetos da sociedade. Os próprios cooperados que têm esse histórico pontuam enfaticamente sua passagem pela história do crime – não para sua humilhação, mas para sua vitória – como eles fazem questão de reforçar. Esses mesmos ex-presidiários hoje, retomada a sua dignidade, se esforçam para proporcionar a mesma chance a outras pessoas cujas vidas estão literalmente na lama. Dependentes químicos em reabilitação, ou que já estão limpos há alguns anos, também fazem parte da cooperativa de alguma forma. Um deles nos contou que, viciado em crack, chegava a dormir todas as noites em um chiqueiro quando foi resgatado pelos associados.

Talvez isso não tenha nada de novo, nem para você que conhece e lê sobre economia solidária, sobre os benefícios da reciclagem e como esse negócio é lucrativo atualmente. Também pode soar como notícia velha que um grupo de pessoas moradoras de uma região de risco se reúna para tentar proporcionar oportunidades para outras pessoas a quem o resto da sociedade vira as costas. Mas para mim, cada passo enlameado dentro da cooperativa, cada cachorro virulento que me passava aos pés, cada criança de pele amarelada que corria no refeitório e cada entulho de madeira que chegava do lixo, me traziam uma certeza de que somos capazes de coisas fenomenais. Sim, Obama, nós podemos, hoje eu entendo você. E aquela velha máxima piauiense que diz “pense numa coisa: pois existe” se confirma.

A cooperativa caminha com as próprias pernas, mas com um orçamento apertado e precisando de ajuda sempre. Mas longe da choradeira assistencialista, eles só querem trabalho. Não consegui tirar fotos de um tambor de mais de 10l lotado de pregos enferrujados retirados da madeira do lixo, para que a madeira possa ser reutilizada adequadamente. Também não tive a sagacidade de fotografar a máquina de cortar madeira construída com peças de uma antiga máquina e com objetos retirados do lixão, obra de um dependente químico em reabilitação. Ou dos trabalhos da estofaria. Ou das bolas costuradas pelos cooperados. Ou dos trabalhos de artesanato. Minha admiração foi tão imensa e tão grande o meu espanto, que só tirei fotos dos recursos: o lixo que transforma vidas.

 

… e que quer ter o direito de expressar-se contra a conduta gay de terceiros:

 

“Agora falo como psicóloga:

Uma pessoa que apresente um traço, conduta, característica ou comportamento que traga insatisfação pessoal, problemas ou dificuldades de interação social, ou que seja contrário a alguma crença dentro da qual foi criado, não significa que deva-se eliminar tal comportamento. É necessária uma análise funcional rigorosa que possa identificar quais as contingências mantenedoras dessa insatisfação. “Quero deixar de sentir tesão por outro homem ou por outra mulher” não é uma demanda fechada. Principalmente, porque não são essas as queixas. As queixas são sentir nojo durante o ato sexual, sentir-se deprimido após o ato, ou sentir-se sujo, apresentar um quadro de ansiedade geral na presença de pessoas do mesmo sexo, e principalmente, esconder-se para realizar o ato sexual. Não sei se vc conhece, mas existem as mesmas queixas em pacientes heterossexuais. Qual deveria ser a conduta do terapeuta? Eliminar o desejo dela por pessoas do sexo oposto?
A orientação geral do CFP e do código de ética é de utilizar-se de intervenções que eliminem qualquer desses sintomas para que, assim, a pessoa venha a compreender sua orientação. Se não houvesse esses fatores sociais que trazem os sintomas acima citados a pessoas de orientação homoafetiva, talvez pudéssemos considerar a procura espontânea como argumento que justifique a eiminação (ou sua tentativa) do desejo por pessoas do mesmo sexo.
Você afirma que as pessoas DEIXAM de ser gays. O que acontece é que você não vê aquela pessoa praticar ou falar sobre sexo  com pessoas do mesmo sexo. Você não mensura se ainda há ou não o desejo. Será se esta pessoa está curada ou simplesmente está CALADA?
Dessa forma, a questão está superada pela OMS, pelas orientações à saúde nacionais, regionais e por pesquisadores e cientistas sérios e, mais importante para esta discussão, pelo código de ética dos profissionais de psicologia. Se essa psicóloga atende gays para tratamento, ela está cometendo uma conduta criminosa, contrária ao código de ética que a rege enquanto PROFISSIONAL. Se ela quiser pensar assim como leiga, na sua igreja, na sua casa, isso não importa. Mas não pode e não deve atuuar PROFISSIONALMENTE segundo uma crença pessoal.
Outra coisa que devemos nos perguntar, nós psicólogos também, é: a pessoa “curada” está satisfeita, atendida? Ou apenas aliviada? E eu te explico a diferença: alguém que sofre de uma fobia social forte e tem crises agudas de ansiedade quando na presença de outras pessoas passa a não sentir esses sintomas, mas se ficar o tempo todo em casa. Ela está curada? Ou apenas aliviada? O contato social é algo do qual não se pode abrir mão, então, mudar a conduta é conseguir realizar o contato social sem apresentar esses sintomas de ansiedade. Recusar o contato para não sentir todos os respondentes, não ter a crise, não é cura, é evitação. Então, essas pessoas não tem mais desejos por pessoas do mesmo sexo? Ou apenas evitam esse contato para atender às expectativas sociais e religiosas de seu grupo cultural e social?
Mais uma vez eu tento deixar claro meu ponto de vista, que é de aceitação, que é de amor, talvez muito mais cristão do que a perseguição que algumas instituições promovem: é justo que você queira que uma pessoa viva de acordo com um dogma que é bom aos olhos de um determinado grupo, mas que destrua ela emocionalmente?
Se fosse um filho seu, o que você faria? “Trataria-o” e o veria suicidar-se aos 40 anos, vítima de um sentimento sufocado por anos? Negaria que ele, mesmo casado e com filhos, some de vez em quando, na saída do trabalho, pra ter relações que considera suja, mas não consegue evitar, com garotos de programa ou sem nenhuma afetividade envolvida? Ou permitiria que ele lidasse com esse sentimento, dando-o liberdade de ter uma relação amorosa saudável, estável e feliz, mas com uma pessoa do mesmo sexo?
O problema, meu amigo, não está em quem sente, está nos olhos de quem vê. Saia um pouco do seu dogma. Coloque-se no lugar do outro. Tenha empatia. Ame seu irmão e aceite-o como ele é. Jesus disse isso. Jesus nunca disse: persiga, mate, aponte o dedo, julgue.
Só pra terminar, gostaria que você parasse de falar que “nós, cristãos” pensam assim. Sou cristã, espírita, com dogmas e fé, mas consigo observar nas palavras de Jesus que deve haver caridade. Por mais que você não concorde com a orientação homoafeitva, não é você que deve apontar o dedo na cara de uma pessoa que já sofre o suficiente os preconceitos dessa nossa sociedade que não olha os próprios defeitos. Deixe que as pessoas vivam algo que não lhes faz mal, nem faz mal a você. Se assim, livres dessa exclusão social, essas pessoas ainda quiserem eliminar essa orientação, aí sim poderemos discutir.”

Por favor, se você discorda de uma conduta, que vai contra os seus princípios ou contra a religião que você cresceu e que seu grupo cultural acredita, antes de apontar seu dedo na cara de alguém, pense em duas questões básicas:

1. Essa conduta me prejudica? Me atinge diretamente? Atinge à minha saúde? Me faz mal porque me atrapalha na minha vida social?

2. Essa conduta prejudica a pessoa a quem a pratica? Tolhe seus direitos, machuca-a de alguma forma? Torna-a menos saudável?

Se a respostas a essas perguntas forem NÃO, então não seja totalitário e não permita que uma crença sua torne a vida das pessoas mais difícil. Olhe pro seu umbigo e mude em você o que ainda está errado. Tenho certeza de que será trabalho suficiente para toda uma existência.

Meio tarde para uma retrospectiva, afinal a primeira semana de janeiro já se foi, mas algumas revisões são necessárias para compilar as aprendizagens por trás dos fatos. O post do Papo de Homem sobre “coisas que você fez e gostaria de repetir em 2010” me inspirou, mas devo dizer que muitas coisas aqui listadas eu não gostaria de repetir.

1.       Parafraseando outra pessoa, digo que, em 2010, eu terminei um relacionamento com uma pessoa de quem gostava muitíssimo, mas por motivos racionais. E com a passagem do tempo tive cada vez mais certeza de que foi a coisa certa a fazer. Vejo as pessoas cada vez mais presas em relacionamentos sem nenhuma perspectiva, sofrendo por isso, mas sem coragem de acabar com tudo. Tive o guts de fazer isso e não voltar atrás, o que poderia prolongar um sofrimento desnecessário. Deu pra aprender também, nessa história, que por mais que seus amigos tentem te ajudar, “abrir os olhos”, essa é uma decisão muito solitária.

2.       Em 2010, também ganhei uma família postiça, com direito a almoços familiares, sobrinhos, tios, aniversários e todos os eventos e situações anexas. Foi uma descoberta muito boa, principalmente porque me fez repensar e amar ainda mais a minha própria família de origem.

3.       Entrei no mestrado que deveria ser dos meus sonhos e acabei descobrindo que não é nada disso que eu quero. Em 2011 vou terminar essa praga, mas só porque não tenho o hábito de começar as coisas e não terminar. Descobri também que, em muitas profissões, você não precisa de um diploma acadêmico para mostrar que é um bom profissional, no entanto, em muitas áreas isso não é verdade, infelizmente.

4.       Reavaliei e reforcei a maioria das minhas amizades em Brasília. Aprendi o quanto é importante ter não uma, mas várias referências para todas as categorias de necessidades que você tenha. Aquele amigo do chopp, aquele de filosofar, aquele pra rir e falar bobagem, aquele pra falar de coisas nerds, enfim… Dá pra coligar todas essas categorias no mesmo amigo, ou em poucos, mas às vezes também não dá. E é bom respeitar o limite de cada um.

5. Low expectations suck! Tirando a parte de que é realmente necessário entender os limites das pessoas e não cobrar além do que elas são capazes de te oferecer, manter expectativas baixas quanto aos acontecimentos da vida é uma bosta! Aprendi em 2010 isso: que temos que esperar coisas boas, esperar ter alegrias, esperar o melhor das pessoas, esperar, do verbo ter esperança. Pessoas como a Paty me ensinaram que amar as coisas que acontecem na sua vida, amar as pessoas, os momentos, curtir aquela música melosa como se estivesse completamente apaixonada, mesmo não tendo ninguém, é algo muito enriquecedor.

6. Também em 2010, me encontrei mais espiritualmente.  Consegui achar em mim uma porção de Deus que estava perdida, muito ligada a ideia de ter esperança, que de certa forma é muito parecido com ter fé. Para isso, deixei de consumir bebidas alcoólicas por um tempo, principalmente cerveja (que eu adooro), e passei por uma fase de recolhimento, pra reconhecer partes de mim que estavam diluídas no mundo do lado de fora. Está sendo, porque ainda não acabou, uma experiência muito edificante, mas a minha fase de recolhimento está passando e decididamente eu já voltei a tomar a velha e boa cervejinha de happy hour. Sem exageros.

7. Voltei em casa algumas vezes esse ano de 2010 e descobri que não pertenço mais ao meu antigo lugar lá. As coisas mudaram, penso e sinto cada vez mais diferente de lá, a família e os amigos pensam e falam, vivem uma vida que é bem diferente da minha, em termos de objetivos, planos, sonhos, desejos. Mas também ainda não me sinto totalmente apegada à nova vida que tenho hoje. Desejo ainda muitas coisas que, sinceramente, acho que não chegarão. É como essa ideia louca que tenho de quão boa seria a minha vida se eu tivesse a vida que tenho aqui com as pessoas que tenho lá. Como isso não vai acontecer, tenho que aprender a sonhar coisas novas.

Dá pra perceber que 2010 não foi lá um ano de grandes acontecimentos, mas de grandes reflexões. Foi um ano pra dentro. Como 2009 tinha sido um ano pra fora. Acho que 2011 ainda tem muito a me surpreender, eu que já vivi 2010 com medo de surpresas, saio da toca e espero um ano equilibrado, pra  dentro e pra fora.

…porque toda anunciação era vã

Então, deixa ser como será… e crer pra ver o quanto eu posso adivinhar.

Tenho uma amiga que se chama Patrícia. A Paty é uma pessoa que funciona na base do amor: seus dias, sua vida e seus momentos têm razão e motivo quando há amor envolvido. Há pessoas que produzem melhor à tarde, outras logo cedo pela manhã. Outras são pessoas notívagas e produzem melhor à noite. A Paty tem picos de produtividade quando está amando. E ela sempre está amando. Quando não há alguém especial para amar, ela está amando aos seus amigos, amando os seus momentos de descoberta, amando a si mesma e às suas músicas que falam de como amar é bom e necessário. Patrícia é uma pessoa que, nessa vida, essencialmente, ama. Já filosofávamos, eu e meus amigos, sobre as possíveis missões que nos cabiam na Terra, nesta vida, e o que era esperado de nós. Acho que a missão da Paty é, mais do que qualquer outra, amar. E assim mostrar aos nossos corações áridos e modernos, que prezamos tanto amar a nós mesmos, mais do que aos outros, com todo o nosso discurso covarde e de pouca entrega aos nossos sentimentos mais plenos, que é preciso amar. Antes de tudo. Antes de saber escrever, ler, raciocinar, argumentar, é preciso saber amar. Saber que a entrega é parte constante e plena de nossa existência. Que só quando aprendermos que apesar de nossos grandes cérebros científicos pós-modernos, não sabemos nos entregar ao sentimento primeiro, para o qual fomos desenhados por Deus e pela evolução: o amor.

Obrigada, Paty, por nos ensinar sempre que o amor é o mais importante. Mesmo quando tentamos te dissuadir disso. Seja forte, não nos ouça. 😉

Morar só [2]

Publicado: novembro 16, 2010 em cotidiano, pq sem dizer nada...se diz mais.

“Acorda preguicinha!”

Como alguém acorda cansado? Olho não quer abrir, soneca no celular.

“Acorda preguicinha!”

Como a voz de uma pessoa de dois anos de idade tentando te acordar pode ser tão irritante e adorável ao mesmo tempo? Levantar, levantar logo. Dia nublado, frio, com que roupa eu vou. Bom dia, Renato Machado. Banho quente, roupa confortável. Saindo de casa com Norah Jones nos ouvidos e uma sensação de oportunidade perdida. Poxa, show da Norah Jones de graça no Ibirapuera? Não era pra perder. Chuva, lama, guarda-chuva e o pensamento mais forte do dia está numa galocha para os pés molhados. Metrô, trabalho. Relatórios, planilhas, perspectivas futuras para adolescentes e seus pais. Senhor de idade passando mal e o SAMU se recusando a buscá-lo. Planos, planos, planejamento. O livro de estatística ainda está na bolsa, a prova é sexta.

Almoço, conversa, bate-papo, família postiça rindo, brigando e oferecendo colo. Hora do trabalho de novo, furo da ONG, celular não atende, furo na reunião, planejamento com a equipe toda. Especialistas recém-chegadas, orientações, acompanhamento das ações, sugestões de como fazer isso e aquilo. Carona até o metrô, nova especialista acompanha, bate-papo sobre pesquisa. Olhos cansados, corpo cansado, e hoje nem foi dia de Unb. Que cansaço é esse? Vou dormir assim que chegar em casa. Pff, como se eu conseguisse. Até logo pra nova colega e a cabeça ainda a mil vem falando com colegas do mestrado pelo telefone, ajuda na prova de estatística, no procedimento novo a ser apresentado ao orientador e ao outro professor. Que escala é essa? Qual o teste que vai ser usado?

Casa. Internet. TV. Banho. E o mundo continua funcionando e falando comigo no facebook, Orkut, MSN, email, blog, jornais. Falo com vários e com ninguém ao mesmo tempo. Alguém me conta um dia ruim pelo MSN. Alguém me conta um dia tranquilo. Contato com pessoa importante para eventos futuros. Cansei de verdade. Shut down everything. Dr. House pra fechar o dia. Episódio sete.

Última olhada no email. “Your submission has been accepted. Congratulations.” É isso. Vou pra Denver, Colorado, apresentar meu primeiro trabalho internacional. Sorriso largo, olho brilhando, olho de lado pra comemorar…

Congratulations.