Arquivo da categoria ‘sábias sapiências da vida pós moderna’

Isso tudo que você vê na foto de cima é lixo, certo? Errado. Todo esse entulho é recurso para a associação Sonho de Liberdade, sediada na Cidade Estrutural. Uma cooperativa que começou com alguns poucos trabalhadores e hoje, além de garantir o sustento de muitos moradores da comunidade, promove um trabalho social importante através de oficinas de marcenaria, artesanato e estofaria para moradores da Estrutural. A cooperativa conta ainda com uma fábrica de bolas, que iniciou todo o trabalho e garantiu que os associados se estabelecessem. Fernando é um dos diretores da cooperativa, que não tem uma estrutura hierárquica muito bem definida no papel, mas que é respeitada sem necessidade de formalizações. Fernando nos conta que todo o recurso da cooperativa provém do lixo. Tudo mesmo. Toda a madeira que vocês podem ver nas fotos é retirada do lixão da Estrutural, além de uma boa parte que vimos chegar vindo das lixeiras do SIA. O material do qual são feitas as bolas também sai do lixo, e até a própria estrutura da cooperativa: os madeirites que separam os galpões, o depósito e a administração foram construídos com materiais que as pessoas não querem mais, entulhos e mais entulhos.

O que é para nós inconveniente por não nos servir mais e esquecido assim que deixa nossas portas, serve a estas pessoas como fonte de renda. Assim como as pessoas que tratam esse material também são por nós consideradas inconvenientes e preferimos esquecê-las . Os principais idealizadores e organizadores da cooperativa são ex-presidiários, pessoas tratadas por muitos como os dejetos da sociedade. Os próprios cooperados que têm esse histórico pontuam enfaticamente sua passagem pela história do crime – não para sua humilhação, mas para sua vitória – como eles fazem questão de reforçar. Esses mesmos ex-presidiários hoje, retomada a sua dignidade, se esforçam para proporcionar a mesma chance a outras pessoas cujas vidas estão literalmente na lama. Dependentes químicos em reabilitação, ou que já estão limpos há alguns anos, também fazem parte da cooperativa de alguma forma. Um deles nos contou que, viciado em crack, chegava a dormir todas as noites em um chiqueiro quando foi resgatado pelos associados.

Talvez isso não tenha nada de novo, nem para você que conhece e lê sobre economia solidária, sobre os benefícios da reciclagem e como esse negócio é lucrativo atualmente. Também pode soar como notícia velha que um grupo de pessoas moradoras de uma região de risco se reúna para tentar proporcionar oportunidades para outras pessoas a quem o resto da sociedade vira as costas. Mas para mim, cada passo enlameado dentro da cooperativa, cada cachorro virulento que me passava aos pés, cada criança de pele amarelada que corria no refeitório e cada entulho de madeira que chegava do lixo, me traziam uma certeza de que somos capazes de coisas fenomenais. Sim, Obama, nós podemos, hoje eu entendo você. E aquela velha máxima piauiense que diz “pense numa coisa: pois existe” se confirma.

A cooperativa caminha com as próprias pernas, mas com um orçamento apertado e precisando de ajuda sempre. Mas longe da choradeira assistencialista, eles só querem trabalho. Não consegui tirar fotos de um tambor de mais de 10l lotado de pregos enferrujados retirados da madeira do lixo, para que a madeira possa ser reutilizada adequadamente. Também não tive a sagacidade de fotografar a máquina de cortar madeira construída com peças de uma antiga máquina e com objetos retirados do lixão, obra de um dependente químico em reabilitação. Ou dos trabalhos da estofaria. Ou das bolas costuradas pelos cooperados. Ou dos trabalhos de artesanato. Minha admiração foi tão imensa e tão grande o meu espanto, que só tirei fotos dos recursos: o lixo que transforma vidas.

 

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Meio tarde para uma retrospectiva, afinal a primeira semana de janeiro já se foi, mas algumas revisões são necessárias para compilar as aprendizagens por trás dos fatos. O post do Papo de Homem sobre “coisas que você fez e gostaria de repetir em 2010” me inspirou, mas devo dizer que muitas coisas aqui listadas eu não gostaria de repetir.

1.       Parafraseando outra pessoa, digo que, em 2010, eu terminei um relacionamento com uma pessoa de quem gostava muitíssimo, mas por motivos racionais. E com a passagem do tempo tive cada vez mais certeza de que foi a coisa certa a fazer. Vejo as pessoas cada vez mais presas em relacionamentos sem nenhuma perspectiva, sofrendo por isso, mas sem coragem de acabar com tudo. Tive o guts de fazer isso e não voltar atrás, o que poderia prolongar um sofrimento desnecessário. Deu pra aprender também, nessa história, que por mais que seus amigos tentem te ajudar, “abrir os olhos”, essa é uma decisão muito solitária.

2.       Em 2010, também ganhei uma família postiça, com direito a almoços familiares, sobrinhos, tios, aniversários e todos os eventos e situações anexas. Foi uma descoberta muito boa, principalmente porque me fez repensar e amar ainda mais a minha própria família de origem.

3.       Entrei no mestrado que deveria ser dos meus sonhos e acabei descobrindo que não é nada disso que eu quero. Em 2011 vou terminar essa praga, mas só porque não tenho o hábito de começar as coisas e não terminar. Descobri também que, em muitas profissões, você não precisa de um diploma acadêmico para mostrar que é um bom profissional, no entanto, em muitas áreas isso não é verdade, infelizmente.

4.       Reavaliei e reforcei a maioria das minhas amizades em Brasília. Aprendi o quanto é importante ter não uma, mas várias referências para todas as categorias de necessidades que você tenha. Aquele amigo do chopp, aquele de filosofar, aquele pra rir e falar bobagem, aquele pra falar de coisas nerds, enfim… Dá pra coligar todas essas categorias no mesmo amigo, ou em poucos, mas às vezes também não dá. E é bom respeitar o limite de cada um.

5. Low expectations suck! Tirando a parte de que é realmente necessário entender os limites das pessoas e não cobrar além do que elas são capazes de te oferecer, manter expectativas baixas quanto aos acontecimentos da vida é uma bosta! Aprendi em 2010 isso: que temos que esperar coisas boas, esperar ter alegrias, esperar o melhor das pessoas, esperar, do verbo ter esperança. Pessoas como a Paty me ensinaram que amar as coisas que acontecem na sua vida, amar as pessoas, os momentos, curtir aquela música melosa como se estivesse completamente apaixonada, mesmo não tendo ninguém, é algo muito enriquecedor.

6. Também em 2010, me encontrei mais espiritualmente.  Consegui achar em mim uma porção de Deus que estava perdida, muito ligada a ideia de ter esperança, que de certa forma é muito parecido com ter fé. Para isso, deixei de consumir bebidas alcoólicas por um tempo, principalmente cerveja (que eu adooro), e passei por uma fase de recolhimento, pra reconhecer partes de mim que estavam diluídas no mundo do lado de fora. Está sendo, porque ainda não acabou, uma experiência muito edificante, mas a minha fase de recolhimento está passando e decididamente eu já voltei a tomar a velha e boa cervejinha de happy hour. Sem exageros.

7. Voltei em casa algumas vezes esse ano de 2010 e descobri que não pertenço mais ao meu antigo lugar lá. As coisas mudaram, penso e sinto cada vez mais diferente de lá, a família e os amigos pensam e falam, vivem uma vida que é bem diferente da minha, em termos de objetivos, planos, sonhos, desejos. Mas também ainda não me sinto totalmente apegada à nova vida que tenho hoje. Desejo ainda muitas coisas que, sinceramente, acho que não chegarão. É como essa ideia louca que tenho de quão boa seria a minha vida se eu tivesse a vida que tenho aqui com as pessoas que tenho lá. Como isso não vai acontecer, tenho que aprender a sonhar coisas novas.

Dá pra perceber que 2010 não foi lá um ano de grandes acontecimentos, mas de grandes reflexões. Foi um ano pra dentro. Como 2009 tinha sido um ano pra fora. Acho que 2011 ainda tem muito a me surpreender, eu que já vivi 2010 com medo de surpresas, saio da toca e espero um ano equilibrado, pra  dentro e pra fora.

 

Iniciando o ano de 2011 com algumas constatações. Primeiro, de que as coisas sempre mudam. Segundo, que o tempo é o senhor das mudanças, por mais que as ações da natureza e do homem se manifestem. Terceiro, que o tempo também é o senhor da constância. Rege seu cajado sobre certas coisas que não mudarão ainda.

Chico Buarque comenta, nesse vídeo abaixo, a Teoria do Homem Cordial, formulada pelo sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, seu pai. O homem que segue seus sentimentos, que é avesso às formalidades e, principalmente, tem uma necessidade de contato social tão urgente quanto uma necessidade básica.

Eu entro o ano falando do tema mais recorrente de 2010, não só aqui, mas em muitos blogs, mídias, conversas de botequim, reuniões de amigos, monólogos no chuveiro…

“O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho…”

Expectativa
ex.pec.ta.ti.va
sf (lat exspectare+ivo) 1 Situação de quem espera uma probabilidade ou uma realização em tempo anunciado ou conhecido. 2 Esperança, baseada em supostos direitos, probabilidades ou promessas. 3 Estado de quem espera um bem que se deseja e cuja realização se julga provável. 4 Probabilidade.

(Michaellis)

 

Conversávamos sobre expectativas. A ideia é a de que devíamos mantê-las mortas. Ou pelo menos mornas. Só assim seria possível levar um relacionamento com um futuro minimamente feliz. Dedicar-se ao outro sem esperar desse alguma retribuição, apenas pelo prazer de fazê-lo, e, principalmente, para que não se corra o risco de esperar em vão e sofrer. Matar a expectativa, na esperança de ser feliz. Irônico. O próprio vocábulo expectativa vem de esperar, ter esperança, afirma uma probabilidade de as coisas acontecerem. Se não há expectativas, não há o que esperar. E se não há o que esperar, não há probabilidade de que algo aconteça. Resta, sim, a probabilidade real de que as coisas aconteçam, mas a probabilidade sentida, aquela que te deixa as mãos suadas, o coração em palpitação e um sorriso bobo no rosto, essa sim estará morta.

Todos os conselhos “mudernosos” de que nos relacionamentos devemos apenas, tristemente, nos resignar em não esperar sermos atendidos em nossas expectativas apenas me diz que estamos covardemente esperando não sofrer. Aponta que nossos corações estão cada vez menos dispostos a passar pelas agruras do não-saber, não-ter-certeza de que seremos correspondidos ou de que aquele alguém para quem você dirige seus sentimentos mais nobres e belos simplesmente não sente e não fará a mesma coisa por você.

E isso remete a toda aquela discussão que tivemos, naquele outro dia que nem existiu, de que  as pessoas tomam Prozac para não sofrer com a morte do cachorrinho ou com a nota baixa da prova. Sofrer não faz mal, bem como esperar também não. Os excessos é que são os vilões, isso é clichê, porém, fato. Você, como eu, como qualquer pessoa, tem sim o direito de ter expectativas, de esperar ser retribuído, de ser amado igualmente. Você tem o direito de esperar que aquela pessoa ache o aniversário de namoro tão especial quanto você acha, de esperar que ela seja tão carinhosa quanto você o é. Na mesma medida, é imprescindível ainda entender o dark side disso: aquela pessoa também tem o direito de não o fazer. De não retribuir, de não achar que as coisas são do jeito que você acha que deveriam ser, ou mesmo de não ser tão carinhoso quanto você espera. E daí, cabe a você, e a essa pessoa, se a ela interessar, lidar com essa decepção. E mais uma vez, você estará no seu pleno direito se decidir não estar mais com essa pessoa que não corresponde às suas expectativas, se isto for incômodo o bastante para esfumaçar a relação, ou se decidir continuar mesmo assim. Isso não fará de você uma skinny bitch ou um loser.

O único fato que defendo é: não há, no mundo, quem tenha o direito de matar as suas expectativas. Ou seja, ninguém tem o direito de tomar sua esperança. Esperar que as coisas sejam melhores, que aquela seja a pessoa ideal, que daquela vez aquela pessoa vai lembrar do seu aniversário. Ninguém tem o direito de tomar o seu direito de esperar. Porque, ao final, é só isso que resta. Aproveito para dizer aos flutuadores do limbo nos relacionamentos que não tem expectativas, apenas deixam rolar, que nós, os sonhadores convictos, esperamos sempre e guardamos a certeza de que o melhor está aqui, em nossas mãos. E que mesmo que este não seja o melhor, guardamos a expectativa, melhor, a esperança, de que este ainda virá.

 

Tenho uma amiga que se chama Patrícia. A Paty é uma pessoa que funciona na base do amor: seus dias, sua vida e seus momentos têm razão e motivo quando há amor envolvido. Há pessoas que produzem melhor à tarde, outras logo cedo pela manhã. Outras são pessoas notívagas e produzem melhor à noite. A Paty tem picos de produtividade quando está amando. E ela sempre está amando. Quando não há alguém especial para amar, ela está amando aos seus amigos, amando os seus momentos de descoberta, amando a si mesma e às suas músicas que falam de como amar é bom e necessário. Patrícia é uma pessoa que, nessa vida, essencialmente, ama. Já filosofávamos, eu e meus amigos, sobre as possíveis missões que nos cabiam na Terra, nesta vida, e o que era esperado de nós. Acho que a missão da Paty é, mais do que qualquer outra, amar. E assim mostrar aos nossos corações áridos e modernos, que prezamos tanto amar a nós mesmos, mais do que aos outros, com todo o nosso discurso covarde e de pouca entrega aos nossos sentimentos mais plenos, que é preciso amar. Antes de tudo. Antes de saber escrever, ler, raciocinar, argumentar, é preciso saber amar. Saber que a entrega é parte constante e plena de nossa existência. Que só quando aprendermos que apesar de nossos grandes cérebros científicos pós-modernos, não sabemos nos entregar ao sentimento primeiro, para o qual fomos desenhados por Deus e pela evolução: o amor.

Obrigada, Paty, por nos ensinar sempre que o amor é o mais importante. Mesmo quando tentamos te dissuadir disso. Seja forte, não nos ouça. 😉

Finalmente, um homem que fala de amor como poucos (ou como nenhum) que já ouvi. Gustavo Gitti tem o dom de falar de mulheres sem abandonar o masculino que há nele. Fala de mulheres para homens no Papo de Homem e fala sobre amor e relacionamentos, sem ser piegas e muito à vontade, no Não 2, Não 1. Vale muito a pena ler os textos desse homem que fala sobre mulheres de forma intensa e apaixonante.

Deixo aqui um texto do Não 2, Não 1. O texto é antigo mas vale a pena ler.

http://nao2nao1.com.br/feast-of-love-homens-buscam-liberdade-mulheres-querem-amor/

A história está no vídeo: um pianista que, ao se deparar com uma foto de pássaros pousados em fios da rede elétrica, enxergou uma pauta musical e compôs uma música. Mais divino, impossível.

A apresentação dessa versão se deu em 2009 no TEDx São Paulo, um evento que trata de grandes ideias para mudar o mundo agora e não no futuro. Esse ano acontecerá o Tedx Amazônia, dias 06 e 07 de novembro. Daqui uns dias falarei sobre ele – eu espero.